NOVIDADES EM LÍNGUA INGLESA NO GATO VADIO


Há muito que queríamos começar a oferecer uma selecção de livros em língua inglesa, depois de já termos em oferta um número razoável nas línguas castelhana e francesa. Estamos agora a fazê-lo com dois livros inéditos em português, que foram muito recentemente editados nos países de origem e que chegaram agora à livraria do Gato Vadio:

Theodore John Kaczynski, Technological Slavery, vol. 1, Fitch & Madison, 2022.
David Graeber e David Wengrow, The Dawn of Everything. A New History of Humanity, Penguin, 2021.


Sobre o volume de Ted Kaczynski, basta dizer, para já, que se trata de uma nova versão, revista e aumentada, dos textos que ele escreveu na prisão durante a última década. Entre nós, multiplicam-se até à exaustão as edições do Manifesto do Unabomber, mas os seus escritos mais interessantes e criativos são, em grande número, os que se seguiram ao seu encarceramento. Editar e ler um condenado não significa uma caução dos seus actos. Significa antes que os prisioneiros, em qualquer sociedade, são cidadãos que devem ter direito à expressão intelectual. Kaczynski, que é um dissidente da sociedade tecnológica, com longos anos de reflexão, merece certamente a leitura e o diálogo com as suas ideias.


Finalmente, o livro, ansiosamente esperado, de Graeber e Wengrow. Ainda mal refeitos da emoção que nos atingiu aquando da morte de Graeber – o Gato organizou uma sessão de homenagem em outubro de 2020 –, tínhamos conhecimento deste livro, que estava a ser preparado a duas mãos há mais de dez anos. Lembramos que Graeber era um antropólogo e, nas últimas décadas, um dos pensadores anarquistas mais originais e profundos (limitamo-nos a citar aqui o seu Bullshit Jobs: A Theory – ed. port.: Trabalhos de Merda, Ed. 70),sendo ao mesmo tempo um activista que esteve na génese do movimento Occupy Wall Street. David Wengrow é um arqueólogo inglês que começou a discutir com Graeber há mais de uma década as várias concepções da evolução humana nas suas disciplinas e o reflexo destas nas suas leituras da sociedade contemporânea. De certa forma, trata-se de ligar o passado, e mesmo o mais remoto, com a ideia que temos do futuro a fim de encontrar posicionamentos viáveis no presente. Traduzimos aqui, «em cima do joelho», um excerto do primeiro capítulo, «Farewell to Humanity’s Childhood»:

Há uma visão do passado que levou a que, em inglês, as palavras «politics», «polite» and «police» soem todas ao mesmo. «Deste ponto de vista, a sociedade humana está fundada na repressão colectiva dos nossos instintos fundamentais, o que se torna tanto mais necessário quando os humanos vivem em largo número nos mesmos lugares. […] Nesta versão, há sempre um líder, macho-alfa. Hierarquia, dominação e cínico interesse próprio têm sido sempre a base da sociedade humana. Sucede apenas que, colectivamente, nós aprendemos, colectivamente, a dar a prioridade aos interesses de longo prazo sobre os instintos de curto prazo; ou melhor, aprendemos a criar leis que nos forçam a confinar os nossos piores impulsos a áreas socialmente úteis, como a economia, ao mesmo tempo que os proibimos nos outros espaços. Como o leitor certamente deterctará no nosso tom, não gostamos muito da escolha confinada a estas duas alternativas. A nossa objecção pode ser organizada em três categorias gerais. Como relatos do curso da história humana, elas:

1. Simplesmente, não são verdadeiras;

2. Comportam graves implicações políticas;

3. Tornam o passado desnecessariamente monótono.

Este livro é a tentativa de começar a contar outra, mais esperançosa e mais interessante, história.»

Graeber e Wengrow, The Dawn of Everything, p. 3.