The Revolution Will Not Be Televised

Kim Bartley e Donnacha O'Brian (Documentário/Venezuela)

Quinta-feira, dia 2 de Julho, 22h


Documentários sobre o Irão seguido de debate com cidadãos iranianos

Dreams of Silk, (Nahid Rezai/2003) + Tehran Has No More Pomegranates (Massoud Bakhshi's/2007)

Sexta-feira, dia 3 de Julho, 22h

Gato Vadio

Entrada Livre



The Revolution Will Not Be Televised

Ao longo da história sonegada do século transacto, o grande desejo das sucessivas administrações dos EUA, como império moderno, é o de dominar todo o continente latino-americano, não se contentando apenas em considerá-lo o “quintal da sua casa”.

O império é conquista e ataque, controlo e segredo.

Desde 1946, os Estados Unidos tentaram derrubar mais de 50 governos, muitos deles eleitos democraticamente.

Nessa guerra obscura, 40 países foram atacados e bombardeados, e no poder foram colocados ditadores ou líderes pró-americanos ao serviço dos EUA e das suas multinacionais, deixando um rasto de inúmeras vidas que se perderam iniquamente.

Dentro do seu domicílio, a justificação para a “guerra suja” era arrebatada com a psicologia das multidões: uma campanha para criar a sensação de terror, de ameaça constante, uma paranóia que se transformou numa super-cultura chamada “Anti-comunismo”.

No final dos anos 80, a política de Washington mudou. Ditadores como Pinochet passaram a ser vistos como uma vergonha desnecessária. Foi, então, lançada uma forma inovadora de controlar as nações da sua horta. Um programa com visão e propósitos nobres, o Programa Nacional para a promoção da democracia.

O estabelecimento deste programa é o principal objectivo dos ideais americanos e das suas instituições, uma ilusão de marketing. Esta flamejante “democracia” pressupõe que, seja quem for em quem se vote ou ganhe as eleições, as políticas vão ser as mesmas, e a economia do país vai ser moldada pela dos Estados Unidos. Washington vai ser um amigo íntimo, uma iminência menos parda, mais sofisticada e cínica, brandindo toda a arte de branding americana para vender a sua asquerosa e sanguinária marca: “democracy”. Franchising da política, carimbado pelo dólar, e com os logótipos das suas grandes corporações.

Nos anos 90, estas democracias substituíram as ditaduras na América Latina.

Retirado de uma música/poema de Gil Scott-Heron, The Revolution Will Not Be Televised é uma visão, com acesso ilimitado, ao golpe de estado ao governo de Chavez em Abril de 2002.




Os realizadores irlandeses Kim Bartley e Donnacha O'Brian viajaram para a Venezuela para filmar um documentário sobre o carismático e polémico presidente Hugo Chavez nos seus primeiros anos de presidência da 4ª nação exportadora mundial de petróleo e de importância vital no fornecimento a baixo custo aos EUA.

Retratam Hugo Chavez – por vezes, com um favorecimento notório – como um colorido herói popular, amado e idolatrado pela classe trabalhadora, pobre e miserável, e odiado por uma estrutura de poder de magnatas petroleiros e a alta classe que o adorariam ver deposto.

Na base desta dicotomia estão os seus planos sociais: educação e saúde sem custos, distribuição dos proventos do petróleo, e criação de um espectáculo da democracia popular, com a rábula televisiva semanal onde Chavez vende a sua imagem de patrono do povo.

Em Janeiro de 2002, Chavez lançou um novo plano de reestruturação da empresa estatal de petróleo, e a crise instalou-se. Volvidos três meses, estes realizadores acabaram por testemunhar o enredo maquinado, culminado num golpe de estado falhado, promovido pelos media privados, orquestrado pela classe do petróleo e com financiamento dos EUA.

Este documentário resultou numa brilhante peça de jornalismo, mas também num espantoso retrato do conflito de forças na Venezuela. De um lado, as classes que vestem Versace, desde há décadas inchadas de lucro petrolífero, do outro, os pobres e miseráveis sem outro horizonte que as suas favelas.

O documentário recebeu 12 prémios e 4 nomeações.

The Revolution Will Not Be Televised

Kim Bartley, Donnacha O'Brian (Venezuela)

2002
tempo: 74 min



IRÃO, Opressão e Revolta - Documentários + Debate

sexta-feira, dia 3 de Julho, 22h

“A opinião pública global e, principalmente, um conjunto dos intelectuais de esquerda, inspirados por acontecimentos recentes no Médio Oriente e na Europa de Leste, interpretaram essencialmente os protestos de massa no Irão como mais uma versão das bem conhecidas, recentemente inventadas, revoluções com nomes de cores, neoliberais, apoiadas pelos EUA, como a Geórgia e a Ucrânia. Mas foi esse o caso no Irão?”, Morad Farhadpour e Omid Mehrgan. (ver na íntegra emblog Infinite thought ).

“Qualquer que seja o desenlace, é decisivo ter em conta que estamos a testemunhar no Irão um grande evento emancipatório que não cabe no enquadramento da luta entre liberais pró-ocidentais e fundamentalistas anti-ocidentais”, Slavoj Zizek. (ver na íntegra em Support for the Iranian People 2009 )





Thriller: Michael Jackson vs Neda Sultan

Lavemo-nos em lágrimas.

Sabemos que a cultura Pop está para a nossa sonolência como no Irão para a revolta desesperada.

Quando se “chora” Michael Jackson é já o ícone que se perde que é chorado. E o desejo do ícone não é mais do que o desejo da banalidade e da continuidade. Ironia do star-system que devorou – sem que o músico fosse propriamente uma vítima disso – o que os Jackson Five comportavam de ingénua irrisão ao verem na cultura branca um émulo, essa ideia barata (branca e com crédito, rica e obesa) que, pouco anos depois, a própria sociedade do espectáculo total se encarregou de despolitizar.

De um lado, (no Ocidente geográfico) afogamento completo da reivindicação de outra ordem (da coisa política, de outro espaço social), do outro (no Ocidente deslocalizado), esperança de rompimento com a ordem existente; de um lado, adormecimento da potência do existente, do outro, problematização fundamental da existência humana; de um lado, conúbio geral com a ideia que o fim da humanidade é isto: estar com a ordem dominante das coisas (aceitação geral do homem-economizado e do homem-sem-desejo-político), do outro, vontade de recuperar o começo do mundo e do humano o que implica a abolição simbólica e política do velho mundo. De um lado, o reino humano a recuar ao nível sumário do sono, do outro o reino da barbárie a esmagar a revolta.

Que questões essenciais são hoje colocadas? Quem prefere o risco da crítica dissidente à hipostasia do lugar-comum?

Os neo-jornalistas que cresceram na cultura pop e não se interrogam da sua habituação, nos próximos dias vão escrever nos seus jornais de referência páginas e páginas sobre a morte do “rei” da Pop. Silogismo semântico da cultura edipiana e psicologicamente “burguesa” do jornalista português? (O que explica que a “crítica” freudiana se conforme à denúncia de hipotéticos abusos da estrela pop a menores e não vislumbre uma crítica possível ao universo de valores da indústria da cultura que nos policia). Sofisticação monárquica da hierarquia da ordem e dos valores dos novos Palma Cavalão? Vazamento dos olhos e da lucidez em nome do deserto de ideias?

Escrevam. Vão falar de uma cultura global, do "homem-criança da cultura pop", apresentarão a prova dessa cultura com uma galeria de capas de jornais de todo o mundo, vão especificar que estribilhos do ícone foram cantados esta noite em Tóquio, Los Angeles ou Arare, serão rigorosos e, arregimentados de estatísticas, disponibilizarão o número certo de chineses e senegaleses que choraram o fenecimento do ícone; com a profundidade a que nos habituaram, vão perfilar a lista de candidatos a apadrinhar a cúpula icónica da sociedade do espectáculo, um ou outro, mais emocional, verterá uma lágrima simbólica pela orfandade do espectro do vazio.

A náusea é sempre insuportável se a experimentamos. Resta-nos saber onde ela pulsa ou o que a faz embotar. E nenhuma cultura global e humana pode crescer sem pensar e distinguir as razões do cortejo de “lágrimas” por Michael Jackson e do quase silêncio das que derramámos pela Neda Sultan.

Os Vadios, 26 de Junho de 2009, Porto


No decorrer da próxima semana passaremos documentários sobre o Irão e organizaremos um debate com a presença de cidadãos iranianos. (Mais info e data em breve).


Our Brand is Crisis, Rachel Boynton
Documentário (Bolívia/2005))
Quinta-feira, dia 25 de Junho, 22h
Gato Vadio
Entrada Livre

"Our Brand is Crisis" narra uma dramática e histriónica aliança entre política e marketing. No seu primeiro filme, Rachel Boynton obtém uma visão impressionante da campanha de Gonzalo Sánchez de Lozada, o "Goni", à presidência da Bolívia em 2002, a partir do trabalho da empresa americana de consultoria de James Carville, famosa por conduzir Bill Clinton ao primeiro mandato na Casa Branca. Contratada para elaborar as estratégias eleitorais de Sánchez de Lozada, a empresa põe em prática técnicas agressivas de manipulação de opinião; o objectivo é mascarar a imagem de Goni e a todo o custo vencer as eleições.

"Our Brand is Crisis" estuda os riscos da simbiose entre ideologia e marketing para a consolidação da democracia representativa numa nação à beira do colapso. Um exemplo da derrota das ideias e da participação livre e consciente dos cidadãos ante a ideologia do marketing, produto acabado da sociedade de consumo e do espectáculo que vê na democracia um mero ritual de cortejo às urnas.

Prémios:

Charles E. Guggenheim Emerging Artist Award at the 2005

International Documentary Association’s top prize for Best Feature Documentary in 2005

Independent Spirit Awards, Edimburgo, 2006

Site Oficial: http://www.ourbrandiscrisis.net/