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A Polícia entrou esta manhã na Es.Col.A do Alto da Fontinha e deteve 7 pessoas que se encontravam no interior.


Entretanto, o edifício já está a ser emparedado.

Os sete detidos foram conduzidos à Esquadra de Campo Lindo.




Tantas vezes vai a ocupação à Fontinha que o mundo há-de mudar

Esses que tornam o mundo inabitável têm um medo de morte a quem tudo faz para habitar o mundo.

Sobre a ocupação auto-gestionária da Escola da Fontinha, não há lugar a colocar o problema sob o ponto de vista abstracto e universal, para que a perversa impotência sirva como argumentação para neutralizar este exemplo e justifique o fastio do “não vale a pena”.


Aqui, transformou-se num mês o mundo-local que falta fazer e que está ao nosso alcance.

Pessoas que se juntaram livremente, reabrindo a escola ao bairro da Fontinha, propondo actividades (cinema comunitário; oficinas de pintura; um atelier de leitura para os mais velhos e para as crianças; um projecto de Apoio Educativo livre e aberto a todos, que incluía matérias como Matemática, Física, História, Geografia, Português, Francês, Inglês, Espanhol, Ciências Naturais, Biologia, Informática, Desenho; além dos jantares populares), pessoas para quem a vida humana e social, a sua liberdade e realização, não é um negócio.


Do outro lado, o “polícia” Rui Rio, gerindo as rentáveis taxas de exploração do vazio e da desumanização do espaço. Aqueles que instauram a política do vazio, da desumanização, da destruição do espaço colectivo e, ao mesmo tempo, policiam o vazio que geram, demonstram aquilo que os move: punir a vida, por há muito terem feito da sua vida uma troca mercantil.

Agora despeja-se, discrimina-se, criminaliza-se, aqueles que recusam cumprir a sua vida e a dos outros pelos índices de rentabilização do espaço, pelos rankings estatísticos da Educação Europeia que ditam o fecho de escolas, pela lógica do lucro que se instaura na vida pública.


Não tenhamos dúvidas: é preciso despejar e deter os rapazes e raparigas – encarnam o perigo de expor e de pôr em causa a ordem policial subjacente à estratégia de preservação do poder. Eles e elas são a clientela que o poder político necessita para vigiar e punir. E, principalmente, punir para vigiar.

Tomem, por isso, cuidado: se vivem ao lado de património Público, do estado ou municipal, abandonado e destruído por esse mesmo poder, em nome do lucro, em nome dos interesses privados, então, quando virem chegar jovens que comecem a limpar, a pintar, a consertar portas e paredes, a fazerem actividades para a população local, chamem a “polícia política”. Sob pena da humanização, da partilha comunitária, da decisão colectiva, da cooperação, da alegria, ressurgirem à sua volta. Como um fogo que alastra.


A “polícia política”, que se auto-condenou a vender a sua humanidade ao lucro, especializou-se em espezinhar a humanidade dos outros para manter o seu poder, pelo que esmagar este exemplo de ocupação autogestionária e de experiência quotidiana de partilha, é um gesto de coerência.

Já não existe metáfora: a degradação da escola da Fontinha une-se à degradação da vida dos gestores da “polícia política”; o vazio de uma é fruto do vazio da outra. Com um dado fascinante: é a própria “polícia política” que estabelece essa união, que protege, estimula, investe, na degradação e no vazio. Agora, emparede-se aquilo que nos pertence, diz orgulhoso o poder político.


O que se pode obter ainda de quem vende e degrada o património de todos confundindo a gestão pública com a liquidação lucrativa, esvaziando de sentido a substância humana desse património, depois de desde há décadas terem eles próprios feito depender a sua humanidade de valores monetários, do dogma do mercado e do fetiche da mercadoria? O que se pode esperar de quem não equaciona nenhuma manifestação da vida humana a não ser se ela for sancionada pelo altar do lucro e pela hóstia do mercado?

Todas as respostas do poder autárquico em geral, como do governativo, caminham para um beco sem saída: o capital, o interesse económico e a protecção desses interesses (e da elite restrita do círculo de interesses), excluem a possibilidade do diálogo – e o diálogo é a reversibilidade plena e democrática de um poder – e a crítica desses interesses.

Mais uma vez, (depois da venda a privados do Mercado do Bom Sucesso, Mercado do Bolhão, Mercado Ferreira Borges, Teatro Rivoli, Palácio do Freixo, Casa das Glicínias, Praça de Lisboa), sabemos por este exemplo que o poder municipal não está ao serviço dos munícipes e de uma ideia de serviço dos interesses sociais da comunidade, mas está ao serviço do mercantilismo e da sua pedagogia de controlo. Desse princípio orientador, os gestores da submissão ao lucro, extraem a sua verdade: quando advogam que o mercantilismo está ao serviço da comunidade e do serviço público é quando o serviço público e a comunidade passam a estar ao serviço do mercantilismo.


As pessoas que se sentem enojadas por esta grande ideia de estarem sempre perto de se tornarem uma mercadoria útil ou inepta do sistema, uma estatística da base de dados de um sistema bancário, uma vítima a mais de um sistema público de saúde, um precário a tempo inteiro e indefinido, não podem responder com o silêncio.

É um facto que o território desta luta não é o presidente da Câmara do Porto, mas as pessoas que não querem viver sob a mentira do lucro, que querem libertar toda a sua possibilidade de dizer que a sua vida passa também por um gesto de união solidária sem competições, sem estruturas partidárias, sem visar lucros, juros, contas, dívidas ou proveitos, mas apenas contar com a riqueza do humano.

Os que habitam o mundo vão continuar a fazê-lo.

Júlio do Carmo Gomes



Programa:

Les Lip, L'imagination au pouvoir, de Christian Rouaud
Documentário, 2007
Quarta-feira, 11 de Maio, 22h
Entrada Livre

Ciclo de Pensamento Crítico
Zizek e a questão ideológica

Incursões vadias por paisagens da Filosofia Contemporânea
Por Luís Carneiro
Quinta-feira, 12 de Maio, 22h



Segunda-feira ao Sol, de Fernando Leon de Aranoa
Filme, 2002
Domingo, 15 de Maio, 18h
Entrada Livre

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