vozes, gritos, palavra.



“No período que antecedeu imediatamente a revolução de 1789, são conhecidos vários levantamentos populares na sequência de tentativas, na altura moderadas, de falsificação do pão: os atrevidos autores de tais experiências foram conduzidos à forca antes de terem podido explicar as suas razões, certamente bem fortes. Nessa época, e durante todo o século XIX, a falsificação era praticada pelo retalhista de forma marginal e artesanal: ainda não incluía a origem da produção dos alimentos, o que só veio a acontecer, com os meios criados pela indústria moderna, a partir da guerra de 1914, início de todo o ersatz. Na altura isso desencadeou uma justa ira. Outros tempos, outros costumes; ou, dito de outra maneira, os benefícios que a sociedade de classes extrai de um pesado equipamento espectacular feito de máquinas e de pessoas pagam agora plenamente os gastos inevitáveis para fazer acompanhar o ersatz do seu complemento indispensável: o esvaziamento das mentes. Foi assim há cerca de dez anos quando o pão desapareceu de França, substituído em quase toda a parte por pseudo-pão (farinhas não utilizáveis na panificação, leveduras químicas, fornos eléctricos). Um acontecimento tão traumatizante como este não só não desencadeou qualquer movimento de protesto como (…) para cúmulo do cinismo, depois de nos terem deste modo levado a perder o gosto do pão, pretendem fazer dele objecto de ensino, uma prática da nova extensão da burocracia da cultura(…) com este novo pão a merecer honras de campanha, fica claro como neste mundo real ele já não tem lugar e só lhe resta o museu.”

Enganar a Fome [Abat-Faim], atribuído a Guy Debord, Frenesi, 2000

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