Greve Geral + Desobediência Civil + Dia Sem Compras


Filmes, debate e conversa | Quarta, Sexta e Sábado


“A desobediência civil não é o nosso problema. O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é que pessoas por todo o mundo têm obedecido às ordens de líderes e milhões têm morrido por causa dessa obediência. O nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo face à pobreza, fome, estupidez, guerra e crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes enquanto as cadeias se enchem de pequenos ladrões e os grandes ladrões governam o país. É esse o nosso problema.”
- Howard Zinn


Jornal A Batalha

, de 7 de Agosto de 1922 
O país estava a atravessar uma grave crise financeira que se prolongou por 4 anos, propiciando depois o golpe de 28 de Maio de 1926, e a consequente implantação da Ditadura Militar. 
[Fonte: Blog Restos de Colecção]

Não queremos que te sintas mal com as comprinhas de Natal!
Celebra o DIA SEM COMPRAS com duas ofertas para download:

Guia Anti-Repressivo

Inspirado num guia anti-repressivo da Confederação Geral do Trabalho (CGT) de Espanha, o Guia Anti-repressivo [pdf] é uma ferramenta de informação, formação e consulta, com o objectivo de ajudar a garantir os Direitos e Liberdades na luta social e sindical.

Acção Directa Não-Violenta

Acção Directa Não Violenta [pdf], baseado no Guia teórico-prático “Como realizar una Acción Directa Noviolenta y no sucumbir en el intento”, publicado em Julho de 2010 pela Assembleia Antimilitarista de Madrid, Grupo Antimilitarista Carabanchel. Edição C.A.G.A. (Contra A Guerra Age)
A Greve / Filme + Debate

A Greve
Filme de Eisenstein (1925)
Debate com FERVE* 
4ª feira, 23 de Nov., 21h 

Sinopse: Em 1912, numa das maiores fábricas da Rússia tzarista, tudo parece calmo: os operários trabalham, a burguesia goza de uma vida rica em prazeres. Quando os contra-mestres percebem que a serenidade é só aparente, e que existe entre os operários uma agitação dissimulada, comunicam-na à direção da fábrica, que por sua vez avisa à polícia. Os espiões enfiltram-se na fábrica e na vila operária. Apelos à luta são lançados pelo comité. O suicídio de um operário, injustamente acusado pela direção de ter roubado documentos, marca o início da greve. Os operários deixam as fábricas, as máquinas param. Organiza-se uma concentração na floresta. Uma ofensiva da guarda montada fracassa. Ao saber da recusa da administração em satisfazer as reivindicações dos operários, o comité decide continuar a greve. A polícia incendeia o depósito de vinhos, certa de que os operários esfomeados irão saqueá-lo, o que serviria de pretexto para represálias; entretanto, o plano não funciona. * FERVE: Fartos/as d'Estes Recibos Verdes

* FERVE: Fartos/as d'Estes Recibos Verdes 

Howard Zinn / Filme

You Can't Be Neutral on a Moving Train
Documentário sobre Howard Zinn (2004)
6ª feira, 25 de Nov., 22h

Sinopse: Um olhar sobre a vida de Howard Zinn (1922-2010), reconhecido historiador, professor, dramaturgo, e activista libertário americano. Tendo trabalhado primeiro num estaleiro e depois como artilheiro da Força Aérea na Segunda Guerra Mundial, Zinn tornou-se um académico revolucionário e líder de desobediência civil numa altura de guerra e em que o racismo estava institucionalizado.
Os seus influentes escritos iluminam e dão voz aos operários, trabalhadores imigrantes, Afro-americanos, americanos nativos e trabalhadores pobres. O filme You Can't Be Neutral captura a essência deste homem catalisador de mudança durante mais de 60 anos, mostrando materiais de arquivo raros e entrevistas com Zinn e outros como Noam Chomsky.

Dia sem compras / filme

Comprar, Tirar, Comprar
Documentário TVE
Sábado, 26 de Nov., 22h

 
SinposeA OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA, uma estratégia para tornar a durabilidade da vida de um produto limitada, para que o consumidor se veja sempre obrigado a comprar novamente. O filme abre com um funcionário da emissora descobrindo que sua impressora havia deixado de funcionar sem motivo aparente e que o custo de consertá-la sairia mais caro do que uma nova. A Obsolescência Programada começou primeiramente com as lâmpadas, que antes duravam décadas trabalhando ininterruptamente mas, depois de uma reunião com o cartel dos fabricantes, passaram a fazê-las para durar apenas 1.000 horas. Essa prática tem gerado montanhas de resíduos, transformando algumas cidades de países de terceiro mundo em verdadeiros depósitos, sem falar na matéria prima, energia e tempo humano desperdiçados.

As ideias libertárias e o anarquismo



«A anarquia é a mais alta expressão da ordem.»

Elisée Reclus «A tarefa dos professores, esses obscuros soldados da civilização, é dar ao povo os meios intelectuais de se revoltar.»
Louise Michel (1830-1905 )


«Não se trata de saber se as pessoas estão suficientemente preparadas para um novo tipo de sociedade; mais importante do que isso é apurar se o desenvolvimento de certo tipo de instituições sociais permitem a expansão das potencialidades do ser humana, como a inteligência, a sociabilidade e a liberdade.»
Paul Goodman (1911-1972)*

*Paul Goodman foi um prestigiado sociólogo, activista, intelectual e escritor anarquista norte-americano que se destacou durante os anos 60 na contra-cultura e no movimento dos estudantes, co-fundador da Gestalt Therapy, e considerado o Thoreau do século XX.


Anarquia e Anarquismo


18, 19 e 20 de Novembro
Palestra sobre Anarquia e Anarquismo
por J. M. Carvalho Ferreira ( da Revista Utopia)

Colóquio sobre Pós-anarquismo e as ideias libertárias no mundo contemporâneo,
por Viriato Porto ( autor do blogue Pimenta Negra)


Projecção do filme Memória Subversiva,
de José Tavares

 



Palestra por J.M. Carvalho Ferreira ( da Revista Utopia)
Sexta-feira, 18 de Novembro, às 22h

    O linguista e dissidente norte-americano N.Chomsky é hoje em dia um dos nomes incontornáveis do pensamento anarquista contemporâneo. Mas, na verdade, atrás dele, existe toda uma corrente de pensadores e activistas sociais anarquistas muito pouco conhecidos pela maior parte das pessoas, o que explica o desconhecimento sobre as ideias e as lutas do movimento anarquista ao longo do tempo, facto este a que não é certamente alheia a intenção deliberada do poder instituído de apagar da memória, a que alguns chamam epistemicídeo, as ideias e experiências que se levantaram historicamente contra a dominação e opressão económica e social.
     Para tentar preencher esta lacuna convidámos J. M. Carvalho Ferreira, dinamizador da revista UTOPIA, e Professor catedrático de Sociologia na Universidade de Lisboa, para falar sobre a Anarquia e o Anarquismo.




Pós-anarquismo e as ideias libertárias no mundo contemporâneo
Colóquio por Viriato Porto ( autor do blogue Pimenta Negra)
Sábado, 19 de Novembro, às 22h

   Enquanto pensamento heterodoxo, o pensamento anarquista não é conceptualizável como uma doutrina política fechada, definitiva e dogmática. Daí a sua permanente reactualização face à evolução social e à emergência de novos horizontes teóricos. 
   Equacionar os desafios contemporâneos do anarquismo, ultrapassar muitas ideias feitas, e até equívocos em que se enredaram até os próprios anarquistas, torna-se consequentemente um imperativo para quem defender o socialismo libertário em oposição ao socialismo autoritário. Recorde-se que as ideias libertárias ganharam fôlego a partir dos anos 60 e 70 do século XX e estão presentes hoje em muitos movimentos e experiências sociais espalhadas por todo o mundo. 
   O pós-anarquismo, ou neo-anarquismo, um novo campo de ideias libertárias, está a germinar muitos dos movimentos sociais contemporâneos que estão a nascer nas sociedades do capitalismo tardio. O pós-anarquismo, com todos os debates e reelaborações teóricas que arrasta consigo, é ainda relativamente desconhecido em Portugal. 
   A sua divulgação constituirá mais um contributo para a livre circulação de ideias libertárias e um reforço para as lutas sociais e a subversão do pensamento dominante?



Memória Subversiva
Projecção do filme de José Tavares
Domingo, 20 de Novembro, às 17h

   Um documento sobre a história do movimento libertário português e o seu enquadramento no contexto da realidade internacional de épocas sucessivas. Memória Subversiva é um documento histórico único sobre as ideias e vidas radicais de alguns protagonistas das lutas operárias que marcaram a primeira metade do séc. XX.
    José Tavares e Stafanie Zoche, autores do documentário, construíram um retrato simples, despretensioso e fidedigno de algumas vidas dos militantes que se envolveram na luta política através da CGT e do anarco-sindicalismo português, e cujo testemunho pessoal permite adivinhar as lutas travadas pela Liberdade e Justiça.

São Martinho, Timor, Jorge Fallorca e Joseph Beuys

Se o vadio não erra o caminho, tê-lo-ei pelo São Martinho.

Magustianos vadios, amantes das capicuas, a partir de 11 11 11 celebremos o São Martinho.

Ao longo do fim de semana, quentes e boas sempre a sair, começamos com Timor e veremos um filminho!

Depois vêm as leituras, jeropiga e água-pé, "A Mulher Descalça" de Fallorca promete pasmar o vizinho.

De Beuys, "Cada Homem um Artista" fechará com ritual: haverá queimada e conjuro, caldo verde, pão e vinho.

Verão de São Martinho são três dias e mais um bocadinho.

Balibo de Robert Connoly
Filme (2009)
Sexta, 11-11-11, 22h

Era ainda noite em Portugal, quando a 12 de Novembro de 1991 mais de duas mil pessoas reuniram-se numa marcha até ao cemitério de Santa Cruz, em Díli, para prestarem homenagem ao jovem Sebastião Gomes, morto em Outubro do mesmo ano. Vinte anos depois do Massacre de Santa Cruz, são velas nas bermas das ruas que carpem os disparos das forças indonésias sobre a multidão. Doze anos depois dos meses sangrentos de 99 que se seguiram ao referendo, "nesta terra de cruzes, valas comuns e desaparecidos", falta "devolver os ossos ao apaziguamento dos vivos."Duzentos mil mortos depois de uma ocupação de 24 anos, "a injustiça e a impunidade são valores seguros em Timor-Leste".(Timor Leste A Ilha Insustentável, Pedro Rosa Mendes, Público - 25/11/2008)
A projecção de BALIBO é um pretexto para o tributo ao movimento libertário do povo maubere: um thriller político sobre história verídica de outros crimes, cometidos enquanto a Indonésia se preparava para invadir o território em 1975, e encobertos durante mais de 30 anos.

A Mulher Descalça de Jorge Fallorca
Lançamento com o autor e Cláudia Sousa Dias
Sábado, 12 de Nov., 17h

Jorge FALLORCA é escritor, tradutor e autor do blogue «O cheiro dos Livros». Natural de Mortágua, exerceu ainda jornalismo e teve uma intensa actividade profissional na rádio tendo participado em programas que fizeram história. Autor de uma escrita impregnada de um quotidiano desencantado e dissidente da massa, Fallorca é pela sua singularidade iconoclasta uma voz libertina nesta choldra em que pastamos. A propósito dele, escreveu Vítor Silva Tavares no prefácio ao seu livro «Imitação da Morte dos Outros»:

«(...) Vamos, palavra
faz de conta que te espreitam paraísos
e o dobrar da vírgula
estrada fora.

Pra já pra já
o lápis na braguilha
os cornos no retarto
- resposta de papel
ao vómito e ao uivo

B A BASTA!
desterremos estes olhos
abjectos dejectos

Virgem putíssima
a Paisagem Deslumbrante
escancara a vulva
à brigada internacional
das Novas Visões.

Jorge Fallorca
aturdido
VEM-SE.»

Cada Homem um Artista de Joseph Beuys
Apresentação por Júlio do Carmo Gomes
Domingo, 13 de Nov., 17h

“Não existe nenhuma experiência que permita saber que argumentos restam ao sistema frente a um modelo radical de liberdade”, Beuys

Figura central da consciência artística na Europa do pós-guerra, a obra de Beuys (1921-1986) tornou-se numa permanente “instalação verbal”, fulcro da sua desdobragem enquanto activista, pensador e professor itinerante (o fluxo beuysiano levou-o a fundar a Universidade Livre Internacional, a Organização para a Democracia Directa ou os Verdes), e rastilho incontornável da sua figura controversa e prometeica. Poucos artistas no século XX rivalizaram Beuys na ruptura estética, na amplitude artística e na contínua experimentação do seu inusitado processo de expressão artística enquanto escultor, performer, pedagogo, pensador radical e activista social.

Esgotada a primeira edição, a 7 Nós volta a trazer aos leitores o percurso ímpar de Joseph Beuys.

Notas a propósito da Assembleia Popular do Porto



É uma versão cor-de-rosa pensar que o sovietismo, ou o modelo actual chinês, ou que o neoliberalismo quiseram acabar com o Estado. Foquemo-nos no presente. Os grandes interesses da indústria e da economia precisam do Estado. Não há TGV sem o Estado, não há Belo Monte, no Xingu, sem o Estado. Não há concessão a privados de exploração de uma ponte sem antes o Estado a ter pago com o bolso de todos (por vezes, com aquele toque delicioso de o corta-fitas do Estado, meses depois, dirigir a empresa que foi concessionada pelo Estado na pessoa do corta-fitas...). Isto é, não existem grandes investimentos, que protegem sobremaneira os interesses instalados e que beneficiam uma elite económico-financeira, sem o contributo e o dinheiro de todos. Tirem daí o chapéu. Ou será que nos basta o conforto de apanharmos, com um bocado de sorte, esse comboio para entendermos estes empreendimentos como socialmente úteis?
O neoliberalismo precisa do Estado. Sem o Estado era difícil legitimar o roubo, o desvio de fundos públicos, gerado por todos, para fins de interesse oligárquico. É preciso um esquema bem montado (embora, nos últimos tempos, a qualidade de gestão da mentira política e o seu show-off diário metam dó...): uma administração, um braço burocrático, um quadro legal. Sem o Estado – e o seu inerente modelo anti-democrático de concentração de poder – não seria possível o modelo neoliberal impor-se com a eficácia e extensão actuais. O neoliberalismo apenas quer acabar em definitivo (visível desde o eixo Reagan-Thatcher), com aquilo que no Estado era social-democracia: direitos laborais conquistados e assistência social pública, em áreas fundamentais, como a saúde, educação, etc. O neoliberalismo desfaz-se agora do sonho da esquerda de inspiração marxista e/ou social-democrata, que na Europa, nos anos 60, ainda conservava a sua influência e vigor: através do Estado e da regulação da máquina estatal a riqueza pública será distribuída democraticamente, atendendo a determinados valores. O problema para a esquerda não era o modo de produção e a técnica do capitalismo, mas o facto deste modelo “servir unicamente os capitalistas, em lugar de servir a humanidade inteira” (Castoriadis). Este sonho alimentou gerações de lutadores e lutadores contra o “capitalismo”, com factuais conquistas de direitos laborais e sociais. Pela luta na rua, pela perseverança e presença nas instituições do Estado.
Se esta estratégia poderia ter dado “os seus” frutos? Se a esquerda foi capaz de conquistar o supérfluo para perder o essencial? Não é a pergunta mais premente. Só se quisermos ser nostálgicos, ou concorrer ao mercado da fruta exótica. A realidade é incontornável: esse sonho estrebucha. Nem com hormonas – que os laboratórios de bio-investigação fizeram o prodígio de pôr à disposição de camponeses fora d'época... – se faria crescer esta fruta estiolada pela dança do capitalismo. Quem pode, com sensatez e racionalmente, agarrar-se a esta verdade de floricultura para suplantar o capitalismo, a falsa democracia, e a máquina de dominação [do Estado] que está a vista de todos? Essa cultura de esquerda com certeza que persiste, esfalfa-se, mas depois de ter sido integrada e dulcificada pelo capitalismo, pelo parlamentarismo, pelas negociações de direitos na roleta do jogo cujo tabuleiro foi imposto à partida pelo donos do casino, onde está o seu poder transformador? Onde está a sua capacidade de mudar o curso das relações de poder? Onde se institui ela como um contra-poder? Essa cultura de esquerda, repito, com certeza que persiste, mas já não engana ninguém, muito menos os senhores do capital. Essa cultura só se engana a ela própria. Antes, tinha mais razões para se enganar e, sobretudo, ainda punha os cães de guarda do capital em sentido. Acreditava-se revolucionária. Hoje, ainda as bandeiras ondulam ao vento pregando “patriotismo e produção”(!?) e um qualquer magnata elogia o direito à manifestação e indignação das pessoas a quem esmifra couro e cabelo.

A par deste sonho, corria a crença geral – da esquerda combativa aos interesses da direita, da alta finança à oligarquia económica – de que a lógica capitalista (produção e crescimento = progresso e desenvolvimento) não devia ser combatida em si, enquanto modelo de organização económica da vida humana: era preciso ir na corrente e, através de reformas ou revoluções, chegar ao poder central do Estado para alterar as caras, as lideranças, os valores, as práticas. Assim se regularia melhor a riqueza gerada pela lógica capitalista. E que riqueza?
Entretanto, nesta sociedade da abundância do desperdício que é a Europa, da hiper-produção e do hiper-consumo, que argumento nos resta para não concluirmos que essa lógica é um equívoco desastroso e uma mentira pegada? Um equívoco porque espalha a destruição irreversível dos recursos naturais; uma mentira por ser profundamente anti-democrática e socialmente iníqua até à ponta dos cabelos. E odiosa, e triste, por viver da guerra e do conflito económico e social. Por ter tido a competência de gerar o desastre que vem: esgotamento de recursos (petróleo, gás, terra fértil), escassez de outros (água), perda da biodiversidade. Tudo isto, para aprofundar o fosso entre ricos e pobres e deixar como herança às gerações futuras consequências socais imprevisíveis.
Mas os indignados sentem-se como a primeira geração global, aquela que “sabe o que é a globalização...” e, por isso, ao sair do seu umbigo, “we think Global”, então, por onde podemos ainda pegar no capitalismo e no Estado (que lhe garantiu as condições óptimas de progresso), para espalhar as nossas ideias realmente-democratizantes-já? Como se pode ainda começar o movimento de pensar a realidade através deste sistema? Como se pode ainda ceder o pensamento (não falo da acção, mas de ver o mundo e a vida humana) a partir de uma ideia que incorpore esta forma e visão do capitalismo enquanto modelo de organização económica e social do mundo? E a abundância que nos cerca, o que dela foi roubo e desprezo para alimentar as bolsas de pobreza de quarteirões inteiros da cidade do Porto? E no Burkina, que rastro de esperança lhes deixamos por termos cá hiper-shoppings a cada esquina, amontoados de tralha made in China? Deve ser o bálsamo do desenvolvimento sustentável a quem caberá corrigir o caos...

Falta por isso uma cultura que nos liberte, enquanto colectivos. Do medo e da impotência.

E se o argumento para não pensarmos numa maneira de organização colectiva que não passe pelo Estado é a civilização, o seu grau civilizatório (como foi aventado por um assembleário), há que perguntar o que a legitima assim de per si e sem mais: a dimensão temporal? Pobrezinho do Estado, ainda tem muito velinha que bufar, se se quiser comparar com isso das civilizações (e comparar para quê?)... O argumento do progresso? Do desenvolvimento? Ainda há razões para ocultar as regressões causadas na vida social pela dominação estatolátrica? A destruição irreparável do eco-sistema? E a civilização que vem, não nos importa? E a outra, a sul de nós? Será que ainda vamos a tempo de exportar melhor este modelo civilizacional? Será que com uma reforma, como princípio, como ponto de partida, a coisa melhora? Ao fim ao cabo, os gestores é que não cumprem bem. Temos de ir para lá nós...

Quanto ao pensamento “libertário”, se alguém pensa que se fecha o Estado de um dia pra o outro, se é ir lá e fechar a torneira, se é com decretos (ou mesmo com propostas políticas), pensa num idílio, numa espécie de Simplex com petardos de fogo-fátuo. A questão não é fechar o Estado, é acabar com a cultura que ele gerou. Não tanto fechando a porta, mas abrindo outra(s). E aí, estar preparado para a defender. A todo o custo.

Mas, assembleários do Porto e de qualquer outro lugar, ser-vos-à útil não desejar que um grupo de pessoas contribuam para querer pensar convosco num mundo que se pensa, por princípio, como ponto de partida – para interrogar o mundo que há, o mundo que está, para o problematizar, para não lhe ceder à partida argumentos que ele intrinsecamente rejeita –, sem o capitalismo e sem a organização social anti-democrática das sociedades? Chama-se, por acaso, “Estado”, a isso que reuniu e melhor cumpriu as condições que favoreceram o aprofundamento da injustiça humana (e não me venham com estatísticas da UNESCO, com a inteligência terceiro-mundista de me dizerem que se a minha mãe fosse Queniana eu era maratonista, corredor de fundo, recordista de corta-mato...), da destruição ecológica, da destruição de práticas humanas, como a construção da autonomia, a partilha da solidariedade, a decisão colectiva, a força da cooperação, etc.
Mais do que usar argumentos como “o Estado é civilização, algo que mantém a ordem e a conversa entre países” (argumentos em si muito falhos sob o ponto vista dos factos e da razão de pensar a realidade criticamente), seria melhor a sinceridade de reconhecer que sem isto a que se chama Estado dá um certo medo de saber o que nos pode acontecer. E isso, não sendo um argumento, porque é da ordem dos sentimentos, é mais verdadeiro e sincero. Porque apesar do estado das coisas ser uma catástrofe ainda nos restam alguns cartuchos...? (e já não era ontem uma catástrofe? E amanhã, esta perspectiva de regulação dos poderes baseada na autocracia e da democracia representativa, dá-vos esperanças? Acreditam nisso? Ou acham que fazer este niquinho que tem de começar por algum lado, de espalhar esta outra cultura, baseada na democracia directa, ou real, ou libertária, ou como quiserem, onde por base todos participam de igual modo com o mesmo poder, é suficientemente melhor por que mais humana? E medo de quê? De nos perguntarmos outra vez o que é essencial para vivermos? Precisamos do Estado e deste estado de coisas para fazermos essas perguntas? Ou melhor, temos medo de tirar consequências dessas perguntas? Perguntem aos vossos avós se tinham medo de viver sem o Estado, se o queriam para alguma coisa para decidirem e transformarem a sua realidade?
Claro, era o tempo da outra senhora... mas vocês acham que a senhora Merkel precisa da censura e da Pide do Salazar para mandar calar um governo eleito segundo as mesmas regras que a elegeram a ela noutro estado? Os tempos são outros. Ela tem a democracia, tem o supra-sumo da própria democracia: uma representação da democracia representativa. Agora, bom, agora agora, até reconhecemos que a coisa está muito mal, até nos indignamos, se calhar pronto, não há argumento senão a escala da coisa, o Estado é muito grande, não é só nosso, é um problema do resto do mundo, não é local, não nos preocupemos tanto por aí já que a coisa é regra, é norma, se calhar temos um bocado de medo para ver a vida humana de outra forma que não submetida a esta hierarquia complexa de estruturas que nos escapam, se calhar, pensando bem, o meu medo é até uma prova da dimensão atroz desta coisa a que se chama Estado. Se calhar, ou eu muito me engano, mas foi a pensar assim que a sociedade no seu todo e cada indivíduo no seu particular deu o seu contributozinho para que a hegemonia se tornasse hegemónica, para que a escala não pare de sair da escala e da escalada. Dá um desconforto muito grande pensar nisso, o melhor é desistir já! Mas olhem que o Olhanense quando joga com o FCP para a Taça, mesmo quando o Big Bola e as sondagens lhe dizem que vai perder, sobe a campo e vai à luta. É que a nós não nos resta aquela desculpa do treinador pós-massacre que a culpa foi do árbitro. Deixa passar a bola, não é. Pões-te fora de jogo enquanto o diabo esfrega um olho. Ainda te resta a meritocracia, e aqueles 700 mil desempregados hão-de aprender a ter mérito, não é uma questão de organização social, é uma questão de mérito ou demérito, por isso, ficaram de fora por demérito, não se pense aqui que é uma questão do modelo de organização económica das sociedades, aliás a meritocracia não é um conto de fadas desse modelo dominante de organização económica das sociedades, nada disso, nada disso...
Por tudo isto, é ou não legítimo perguntar que atitude adoptar quando a todos a análise da catástrofe nos indigna e, ao mesmo tempo, constatamos que nós próprios vivemos na integração perfeita dos valores desta sociedade?
É ou não legítimo perguntar se toda a organização da civilização moderna (o Estado) forma um mundo onde nada é feito à medida do homem?(Simone Weil) E onde tudo conflui para separá-lo da sua humanidade? Da sua capacidade para agir sobre o seu próprio mundo, as suas necessidades, os seus desejos?
É ou não legítimo perguntarmo-nos porque é que este tempo em que vivemos, (não tanto se tem mais ou menos revolucionários), tem tantos críticos desse mesmo tempo com medo de revoluções? Porque a falta do carácter revolucionário nos indivíduos que compõem a sociedade é um facto objectivo que é explicado pela estrutura em que assenta essa sociedade?

Não importaria esta tónica no Estado (ademais, daqui a nada pareço o Beavis and Butt-Head a fazerem corninhos e abanar o capacete contra o sistema...ugghh, só porque sim). Mas não levar até ao fim um pensamento apenas porque algo se parece com uma verdade estabelecida, não é muita saudável à cachimónia. Ainda assim, concordo, a massa cinzenta não é tudo. O problema é quando essa verdade estabelecida serve para tanta mentira e sofrimento humano. Por isso, esta base autocrática em que o Estado vincula as relações de poder entre
pessoas está demasiado impregnada no nosso imaginário, colonizado pela autoridade e a submissão a um modo de pensar e produzir capitalista.

Se as pessoas não fazem por construir a democracia directa no lugar onde habitam e passam a vida, se não lutaram no lugar de trabalho, na escola onde têm os seus filhos, pela cultura democrática, então, nenhum libertário de facto poderá supor com razoabilidade que se fecharmos o Estado amanhã essa cultura crescerá do dia para noite. Mas se a queremos fazer aqui, não pode ser por teatro.

Eu sei o que é o pior da vida de tantos, aqueles de ontem, aqueles que antes de nós, já não tinham eira nem beira, mas que todavia viviam sem a dose de auto-engano que vos continua a alimentar. A esquerda ampla das boas-intenções da minha geração ofende-me quando parece querer dizer que por a democracia representativa ter sido uma conquista, a partir daí, verdade histórica, fecha o tasco, melhor do que isto não há, foi magia e o resto são cantigas. Ou quando, nesta sociedade da abundância é escandaloso pensar que só uma tempestade de miséria onde a necessidade material bata no fundo possa despertar o ser humano e a sua acção colectiva. Este paradoxo infeliz parece querer realizar-se. Era bom que esta assembleia, como tantas outras, o contrariasse.

Vadio

"O Evangelho Segundo o Precário" + Leitura de histórias de Daniil Harms

 

"Sejamos preguiçosos em tudo, excepto em amar e em beber, excepto em sermos preguiçosos"

                                     Lessing

 

De todos os direitos humanos ainda por inscrever na famosa Carta, a preguiça é certamente um dos mais vulgarmente desprezados e esquecidos. A exaltação do amor pelo trabalho, do desejo destrutivo pelo labor, continua a torturar esta infeliz humanidade, extenuando sem apelo nem agravo as forças vitais de gerações e gerações.Numa altura em que a palavra de ordem da Ordem estabelecida é (outra vez, que estafa...) "Trabalho, trabalho, trabalho!", a Saco de Gatos convida-o a esticar-se ao comprido, enroscar-se na chávena de chá porque o frio já aí está, e a calmamente digerir connosco tudo o que se tem passado ultimamente. É que se adivinham dias bastante ocupados, ou pelo menos com muitas Ocupações, e a preguiça também serve para isso mesmo, para inspirar e ganhar balanço...Nesse espírito, a programação desta semana é totalmente assegurada por propostas de colectivos exteriores à associação Saco de Gatos e que, aproveitamos para dizer, temos todo o gosto em tornar possíveis.

Que esta seja a primeira de muitas vezes! (e só para o caso de não termos sido suficientemente explícitos: estamos abertos a propostas de actividades, por isso, venham elas)

 

Quarta-feira, dia 2 às 22h

Colectivo F.e.r.v.e., Fartos destes Recibos Verdes, apresenta:

O evangelho Segundo o Precário - Filme de Stefano Obino

Este um filme muito especial, não só pelo tema escolhido, como também pela forma como foi financiado. Retrata quatro histórias cruzadas de pessoas que têm vidas precárias, relações de trabalho angustiantes, que são maltratadas por chefes prepotentes. Algumas reagem, outras adaptam-se.

 

Sábado, dia 5 às 17h

Miguel Gouveia (editora Bruáa) e Rui Manuel Amaral lêem histórias de Daniil Harms:

Daniil Harms (1905-1942) pertence à última geração dos grandes vanguardistas russos que ainda ousaram exprimir-se com liberdade e ironia. É um dos mais originais representantes das novas perspectivas literárias que influenciaram a Rússia e o mundo desde o final do século XIX até ao final do primeiro terço do século XX.

Veja um trailer aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=A8IP7bbew98