Complementos funestos à interpretação da greve geral

Complementos funestos à interpretação da greve geral



Não é o Carvalho da Silva, muito menos um discurso televisivo de Pacheco Pereira e Lobo Xavier, que põe a nu a falsa democracia. Mas um polícia à paisana apanhado a bater vergonhosamente num manifestante. O fio do discurso de Pacheco Pereira (PP) e Lobo Xavier (LX) pode dar muitas voltas, mas o novelo para o qual contribuem/contribuíram, ao fazerem parte de organizações políticas que dispõem ou dispuseram do poder central, acaba numa bastonada. Na legitimação do controlo e da repressão. Já o discurso de Carvalho da Silva, segundo o estilo tenso do Público, termina, no “momento de maior tensão”, na “barreira [contra os “indignados”] com os paus das bandeiras” de “ vários manifestantes da CGTP”.

A falsa democracia não tem mais nada a oferecer àqueles que desmantelam e rejeitam a sua mentira: a bastonada, a imposição do medo, a criminalização e o controlo pelo isolamento.

A questão não é saber se PP E LX são lúcidos, mas perceber como usam eles essa lucidez. A que práticas e fins submetem a lucidez que os abençoa? Senão à preservação da realidade para a qual concorrem. A única lucidez que nos resta (e aquela que devemos ainda reconhecer neles como ser conscientes) é acusá-los à sua escala de serem responsáveis pela crise social de que aligatoriamente se lamentam. Há que reconhecê-lo, tiveram e têm essa competência, a lucidez de perpetuar o desastre social em que vivemos. E a astúcia de não responderem à questão fulcral da noite: o que cumprem aquelas bastonadas de um polícia à paisana num manifestante?

Diz Rui Pereira que “a legitimação do discurso e dos seus enunciadores é um dado central do funcionamento do político nas sociedades de oligarquia liberal como a nossa, onde o poder se torna transferível dentro de certos limites. O alargamento desses limites é já um acréscimo de poder por parte dos que, usualmente, se encontram deles excluídos.”

O alargamento desses limites” não significa correlativamente um acréscimo de poder, até porque o poder de que se fala reside no próprio funcionamento político das oligarquias liberais (a democracia representativa) e é nesse próprio funcionamento que reside o fulcro anti-democrático desse poder. Daqui se infere que o alargamento dos limites da legitimação dos actores políticos contestatários e seus discursos, revela-se conjunturalmente desde há algumas décadas mais na extensão dos limites de integração nesse sistema de funcionamento não-democrático e controlado hegemonicamente pelo modo capitalista de organizar a vida colectiva, do que em conquistas emancipatórias no terreno da luta laboral ou em sinais de desmantelamento da técnica de exploração económica. Por contraponto, provam-no também as conquistas políticas parciais dos movimentos LGTB e ecologistas, cuja legitimação do discurso e seus agentes dá-se na medida em que não representam um perigo, quer para o poder económico, quer para a forma de regulação anti-democrática do poder central. Pelo contrário, servem para encaixar na máquina lucrativa e na auto-legitimação do modo capitalista e liberal-democrata de fazer (destruir) o mundo.

Ou seja, com o “alargamento desses limites” o poder passa a trazer e a dispor à sua mesa de um limite mais amplo para controlar (chama-se negociação, concertação social, diálogo, instituições democráticas, eleições) sectores sociais. Sem dúvida que esse espectro de ampliação e controlo pode pressupor conquistas como o aumento de salários, melhores condições laborais, garantir direitos ao nível da saúde e educação pública, etc.

Porém, e os factos históricos mais recentes, não apontam para a deterioração acelerada dessas conquistas? E esses parceiros sociais (sindicatos e partidos de esquerda) já não estavam lá, legitimados e escutados? Integrados numa visão económica intrinsecamente absurda e iníqua, e numa forma de regulação das relações humanas menor, autoritária, hierarquizada? Ou seja, não estavam já integrados na visão anti-democrática que nos levou a onde estamos?

E, finalmente, que conquistas sociais são essas? Senão uma adaptação ao descalabro da sociedade mercantil e ao modo de vida que ela gera? Desejamos a mercantilização de todos os aspectos da vida e uma loja dos chineses para todos como império dos sentidos...? E essas conquistas suspeitas, retiram-nos ou não a capacidade para agir sobre a realidade que nos envolve? Soporizam ou não a reflexão sobre as necessidades humanas? Atrofiam ou não o nossos desejos?
São essas conquistas que nos tiram o essencial e dispõem da magia para que nos quedemos contentes com o supérfluo.

Para os dirigentes do poder o estado das coisas é o preço a pagar por camadas extensas da população, para que uns poucos desfrutem de uma concentração de riqueza e poder sem precedentes e as massas de uma vida de miséria trágico-feliz, inundadas de tecno-mercadorias, cimento, toxinas, poluição e estupidificação cultural.

Para a esquerda (PCP/BE/CGTP) não há que mudar substancialmente a direcção do barco, apenas substituir os navegadores. Pior, não querem alterar as formas de comando e organização. Numa imagem, a esquerda não quer mudar de barco.

É estranho, e um mau prenúncio para todos, que a cultura de esquerda não veja que a sua lógica “própria” e as suas práticas se afundaram ainda antes do já mais que visível afundamento do capitalismo global. Essa esquerda de inspiração marxista, cujo poder se diluiu visivelmente nas últimas décadas em virtude da sua integração plena, desbaratou qualquer ímpeto revolucionário dos movimentos assalariados. Que ambição é essa de a esquerda hoje querer gerir a catástrofe social e ecológica geradas pelo capitalismo, para mais adoptando a mesma visão de organização colectiva do poder e uma crença económica, um pouco mais reguladora e socializante, no crescimento e na produção lucrativa? Que quimera é essa, se ontem quando dispunha de um poder maior e mais independente não conseguiu travar o capitalismo, num momento em que ainda não se vislumbrava à vista desarmada o pesadelo do mercantilismo e da mentira da sociedade do progresso? Que sonho é esse de a esquerda querer gerir um cadáver?

É irónico que até os altos dirigentes do poder capitalista já tenham percebido que só lhes resta um cadáver ao mesmo tempo que a esquerda se julgue ainda num safari...
Aqueles que desejam construir/ou constroem a democracia directa no lugar onde habitam e passam a vida, criando uma cultura anti-autoritária e cooperativa, não podem negligenciar o quão terrível é ver dezenas de milhar de assalariad@s a empregarem a sua energia combativa, submetidos a um aparelho de controlo sindical e partidário.

Outras questões deve suscitar a legitimação mediática dos contestatários, de que fala Rui Pereira.

Corre-se um sério risco de desvalorizar e esvaziar a acção quotidiana (o que conta para a transformação directa e local da vida comum), ao reconhecer a existência de um contra-poder(???...12 de Maio; 15 de Outubro; Greve Geral) pela sua imagem mediática ter subido no share da TV e no barómetro político dos detentores de um “macrofone” já há muito a tresandar .

E o que é uma “mobilização crítica” contestária que (se) vê/revê aumentar a sua força na boca dos administradores e amos da sociedade mercantil? Não é a (falsa) força do espectador? A qualidade dessa força ao confundir-se com a qualidade do espectáculo (o rearrumar hierárquico dos argumentos) mostra a incapacidade para reconhecer e recuperar a realidade. A sua realidade. E essa realidade, por graças, não passa por TV.
Ali onde a vida humana se tornou nociva por causa do modelo capitalista e do amplexo sufocante e guardião do Estado, não se pode aguardar por uma “consciência social” legitimada na TV. Esse episódio (“as condições objectivas para a revolução ainda não estão no seu ponto...”) passou à História e passa no canal Comité Central. Não há compasso de espera possível. Para ocupar a vida plena, autónoma, colectiva e auto-gerida.

De facto, a função do sindicalismo da CGTP é mediar o conflito. E ao mediá-lo, tanto e tão burocraticamente, domesticados pelos detentores das regras do poder, o conflito deixa de reconhecer-se. Outra conquista do marketing-directo capitalista: tornar invisível o conflito a que submetem a vida humana. E esse conflito não deve ser reconhecido mediaticamente na boca de políticos mais do que suspeitos, mas deve tornar-se visível pela realidade do confronto.
Por um lado, o confronto dificilmente pode estar no estribilho ouvido há algumas semanas no 15 de Outubro nas escadarias de São Bento: “Esta casa também é nossa”. Lagarto, lagarto... Por outro, o confronto dificilmente poderá ser ganho na batalha campal. E a questão seria, para quê? A revolta grega é singularíssima; a polícia foi vencida, ou seja, foi vencida a força de repressão de um governo/sistema e, no entanto, porque é que este não cai/caiu? Porque razão um Estado dito democrático é já, ironicamente, impotente para cair face a uma revolta generalizada e persistente? (Imaginem o que teria já sucedido neste cenário de mobilização e insubmissão há vinte ou vinte e cinco anos numa democracia representativa...) De novo, o novelo de ponta a ponta: a democracia representativa criou as condições para promover a fluidez do grande capital e homogenizar e concentrar o poder político numa estrutura pós-anti-democrática, controlada por uma elite: a UE. Liderada por um rosto humanista, liberal e democrático, que esteve ao lado da organização da morte colectiva (Cimeira dos Açores, 2003, 48h antes da invasão do Iraque), para salvar mais uma etapa da lubrificação de um sistema que se alimenta da destruição da vida humana, da violência económica e social.
Parece necessário que esse confronto nasça de uma transformação radical das relações sociais, da disseminação da democracia directa, do auto-governo e da cultura assembleária por todo o lado onde a vida colectiva se faça, ou comece a existir. Por outras palavras, em qualquer forma autónoma de luta social com o horizonte numa vida livre de capitalismo e de estruturas anti-democráticas como o Estado.

Apregoar no parlamento “esta casa também é nossa” parece sibilinamente enviar-nos, por contraponto, para a crença de onde provém esse pregão: “é dentro de casa que estão os limites do nosso mundo”. Pescadinha de rabo na boca, franca vitória da cultura do liberalismo: ter feito acreditar a milhões de europeus que a realização e transformação do mundo é uma competência que circula e se articula entre estes dois espaços: o parlamento e o quarto de dormir. Lar doce lar... Com esta crença estabeleceu-se o deserto, na rua, na fábrica, nas escolas, nos bairros... O espaço público ou desaparece, ou é dominado por uma oligarquia, ou é uma mera questão técnica entregue a tecnocratas. Êxito da separação total dos indivíduos.
A invisibilidade do conflito grassou aí onde se dissolveu qualquer outra forma de vida colectiva. Diríamos, onde a vida colectiva deixou de existir. Esse esvaziamento da vida colectiva – a dissolução de qualquer forma de vida pública é uma consequência do triunfo da sociedade de consumo e da educação das massas para o individualismo – concorreu gritantemente para o desaparecimento dos mecanismos (já em si cerceados, parciais, etc...) reais de participação política.

Rui Pereira afirma ainda: “Nesse sentido, esta é talvez a mais «política» das GG até hoje desencadeadas em Portugal.”

Será política se se reconhecer que o aprofundamento da injustiça social, a bolha especulativa, a décalage entre ricos e pobres, e a concentração oligárquica do poder só foi possível graças a uma economia de hiper-produção + hiper-consumo, à hóstia da tecno-ciência e ao sistema representativo que lhe garantiu as melhores condições para realizar esse pesadelo humano, social e ecológico. Se a realidade da opressão causada pelo fascismo financeiro e a desumanização fomentada pelos gestores da democracia representativa não basta para motivar a revolta e a transformação radical da sociedade é porque a ponte entre ambas cumpriu eficientemente com o controlo político, a integração da esquerda e a lavagem cultural dominante.

Vadio



P.S.: As citações a que me refiro de Rui Pereira, são apenas âncoras para fazer outras reflexões. Em nenhum momento visam implicá-lo nessas conclusões ou associá-lo aos vários alvos criticados no texto.

Aproveito ainda para desfazer um possível mal-entendido. Onde se lê: “Aqueles que desejam construir/ou constroem a democracia directa no lugar onde habitam e passam a vida, criando uma cultura anti-autoritária e cooperativa, não podem negligenciar o quão terrível é ver dezenas de milhar de assalariad@s a empregarem a sua energia combativa, submetidos a um aparelho de controlo sindical e partidário.”. Pretende-se dizer que esses que desejam a democracia directa e uma luta extra-parlamentar, não podem virar costas e deixar de pensar que as massas de assalariados politicamente activos noutros quadrantes têm de conhecer outras formas de transformar a realidade e de agir. Se se pretende uma cultura libertária ampla e isso de criar “movimentos sociais”.





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