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Conhecem aquela sensação quando uma corda está esticada ao máximo dos máximos e contraímos os ouvidos porque sabemos que a qualquer momento ela vai rebentar?
Roída pela traça, pela obsessão, pelo disparate pegado, pela camisola, pela falta de juizinho, pela cabeça na lua, pela utopia, pelos pés na terra, pela consciência tranquila, pela broa, pela poesia…
Foi com essa corda que fizemos trapézio sem rede durante três anos e meio.
E o que era aquilo a que eles se agarraram com unhas e dentes como se o fim do mundo fosse amanhã e fosse preciso viver todos os dias, como se a vida fosse uma coisa preciosa e o ar dos nossos pulmões se quisesse sustentar com o seu próprio oxigénio, com o seu próprio ar?
E aquilo, a bem dizer, não era nada que se pudesse definir com uma palavra, a que se pudesse chamar um nome, nada de concreto, nada de objectivo, causando grande embaraço às nossas tias e irmãs pois não sabiam como chamar aquilo. Faltava sempre qualquer coisa…
Quer dizer, não é um bar, também não é uma livraria, e tudo um bocado escangalhado, teias d’aranha, cadeiras desconchavadas, sofá carunchoso, chávenas esbeiçadas, um bocadinho pró impertinente nos dias que correm, em que o mainstream e o underground vivem em união de facto, ora provocando a repulsa de uns, ora suscitando sorrisos amarelos nos outros.
Um pouco como acontecia com aquele cadeirão Luis XIV na livraria, endrominado no lixo e a que sempre caía o braço, que coisa desagradável, que partida de mau gosto… mal alguém se sentava, zás, o braço tombava, durante três anos e meio vimos o braço a tombar, só poderia tombar, a pessoa senta-se, refastela-se, encosta-se para trás, já abriu o livro no regaço e, ao pousar o seu antebraço, zás, fadado com’ ó destino, o braço cai e rola pelo chão. É que não seria sincero da nossa parte, não seria autêntico não provocar um embaraço na clientela, seria postiço que o braço permanecesse imóvel, estático, apático, confortavelmente acomodado no seu lugar, seria um insulto colá-lo com cuspo só para inglês ver, nada disso, daria azo a que o leitor, sentado no cadeirão, fizesse uma leitura politicamente correcta, e disso não temos, aviem-se noutro lado, então, zás, catrapumba, esparramado no chão. Essa foi bem aviada! Alguns baixavam-se, apanhavam o braço, pasmados por algo ali ser autónomo e mexer-se, ficavam atónitos, boquiabertos, como era possível, um braço vivo? Esforçavam-se, de cu pró ar, por colocá-lo à força, encaixá-lo na sua forma de pensar, pô-lo de volta ao lugar que lhes convinha para que tudo ficasse na mesma, aliás o lugar preferido do leitor em potência, da clientela latente, o que é preciso é que tudo fique na mesma, arrumadinho como dantes, santacombistas não faltam. Outros, coravam, não sabiam onde se meter, apanhados em flagrante por não saberem o que fazer com um braço vivo na mão e, então, às esconsas e de fininho, davam-lhe com o pé, com a ponta do sapato, para enfiarem o braço do cadeirão para debaixo daquela espécie de sofá feita com paletes do Continente. O braço jazia às vezes semanas a um canto, arrochado no pó, parecia nidificar, a ganhar forças, mas sempre vivo, o braço. Madrugada alta, quando a porta se fechava, acoitava-se no silêncio, mas não dormia, nunca dormia, este braço vivo. Passava horas de insónia: o braço alimentava-se do seu próprio braço mas nunca trazia pão para casa… ou o pão que trazia nunca chegava. Mas isso é um conceito demasiado esofágico, não é? Lá vêm eles com histórias, com lérias, a impor-nos a gastrite na cachimónia, a revolver-nos a consciência com temas desagradáveis, isto é que é uma porra, não se pode vir beber um café sem ficar maldisposto das virilhas, ou do hipotálamo, e ainda por cima não há tremoços, uns salgadinhos que se apresentem, nada, alcagoitas avant-garde e champagne chinês que o mundo está lindo, as andorinhas voltam pró ano, não te preocupes, o Sócrates faz-te um banquete platónico e depois dá-te o arroz, vais ficar alegremente nobre a ver peixinhos exóticos pela escotilha do submarino, não te preocupes que os anos não passam em vão, nada disso, tens tempo filho, nada é em vão, nem o teu recibo verde, nem as 65 horas do camarada Belmiro, nem o teu desemprego, nem a tua depressão, nem o teu mestrado, nem o teu ponto de vista sobre a realidade, a tua consciência crítica, o teu jet leg sócio-cultural, tudo isso está contado, tudo isso está contabilizado, não te preocupes que eles fazem as contas por ti, não te maces, olha lá vai mais um peixinho, um girino, um gambozino, uma alforreca… Mas não há verdades absolutas, pois, pois é. Só aquela que se vive na pele. Fecha lá o tasco, tás fodido mete rolhas, já tens idade para acertar o passo, filhos para criar e ainda refila o marmanjão, saiu-me pior do que a encomenda, isto são tudo mesquinhices, são tudo pormenores, ressaibo, ressaibinho, nós de facto nunca existimos, foi tudo um engano, já cá não está quem falou, isto é literatura de pé-de-chinelo, e um dia (a tão não! Até nós, pá!) todos estaremos acima destas realidades comezinhas, sem saber de que terra somos mas com um feng shui nos dedos mindinhos, o shakras numa nice e uma liposucção da vida, grátis e a cores!
Para o bem e para o mal, dia e noite, gatos e vadios, só soubemos viver.
Tragam cordas, tragam. Serão poucos mas bons os amigos e amigas vadios que terão coragem de subir connosco ao cadafalso.
Desampara-me a loja ó Etelvina! Trocado por miúdos: ou o projecto Gato Vadio se torna numa associação com mais malta a dar o corpo ao manifesto, ou então chapéu, bye bye.
Em breve, comunicaremos se houve lugar à metamorfose em associação ou se marcamos a data para juntos subirmos ao cadafalso em festa e alegria!
Abraço e obrigado a todos.
Alto! Um momento! Antes que seja tarde, quem quiser este fim-de-semana, de sexta a domingo, poderá comprar os quadros da Maja Vadia. Estarão à venda. 1 quadro = 20€ / 2= 30€. Aceitam-se encomendas.
Agora é a sério. Pensavam que era só conversa, tanto paleio, tanto paleio, ah, já desconfiavas não é, sabe-la toda, aqui há gato, pois claro, é que desde há 4 anos temos uma goteira no quarto e o bolor e o cogumelo e a micose e a fermentação dos líquenes na tua e na nossa cabeça, enfim, estes gajos não existem. Venham lá dar uma ajuda.
O horário provisório mantém-se.
MIXIN'AROUND
Concerto - FREE-LAB- MUSIC-PROJECT
Domingo, 17 de Outubro, 18h
Entrada: 2 Gat€s
MIXIN'AROUND (Blasé, dj e vozes, e Paulo Jorge, saxofones) é um FREE-LAB- MUSIC-PROJECT que mergulha nas sonoridades contemporâneas do Jazz, do Dub e do Drum n’ Bass, mas que não perde o oxigénio instilado pela tradição do Free Jazz de Coltrane a Albert Ayler.
Ver e ouvir:
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O novo conceito estratégico da NATO
Conversa com Reiner Braun
Quinta-feira, 14 de Outubro, 21h30
Livraria Gato Vadio
Rua do Rosário, 281 - Porto
Entrada Livre
Org: Pagan (http://antinatoportugal.wordpress.com/quem-somos/)
Em Novembro de 2010, a NATO realizará uma cimeira em Lisboa para definir o seu novo conceito estratégico. O grupo de peritos formado para pensar este novo paradigma da Aliança Atlântica, onde pontificava Madeleine Albright, já fez sair um texto de recomendações, no qual a palavra "desarmamento" não aparece.
Baseado nesse documento, Reiner Braun, co-presidente do Comité de Coordenação Internacional da Coligação No to War No to Nato, vem ao Porto desmontar o significado das palavras de Madeleine Albright: "A Aliança deve ser versátil e flexível neste período de incertezas no século XXI".
Reiner Braun falará em inglês e, infelizmente, não dispomos de sistema de tradução simultânea.
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Vadias e vadios,
A noite continua escura…
Depois de lhes roubarem a infância, um dia vão cortar 5% das crianças pobres.
À Flor da Pele, de Catarina Mourão
Documentário seguido de tertúlia “Pobres crianças pobres”
Domingo, 3 de Outubro, 21h15
Gato Vadio
Entrada Livre (com um aumento de 5% na liberdade em nome do interesse nacional)
Org. Agir XXI + Gato Vadio

À Flor da Pele, de Catarina Mourão
Prémio Melhor Filme da Competição Internacional do Fórum de Documentário de Belo Horizonte, Brasil, Dezembro 2006
Sinopse:
Véspera do Europeu de futebol. A ansiedade. O desassossego. Emoções à flor da pele. Num bairro pobre do Porto, tal como em todo o país, um grupo de crianças come, respira e dorme futebol. Enquanto aguardam, com os pais fora de casa, os seus dias são preenchidos pela liberdade da criação das suas próprias regras e na invenção de novos jogos, jogos de poder, emulados dos modelos em casa. O Europeu começa e com ele os rituais: as televisões são colocadas na rua e os jogos são seguidos, com euforia. As vitórias e as derrotas da selecção Portuguesa são festejadas ou choradas por todos. Mas, à margem de todo este burburinho, um dos miúdos não partilha deste interesse pelo futebol e refugia-se num mundo onírico.
"O Campeonato Europeu de Futebol estava a decorrer. Todos os olhos estavam postos em cima dos estádios, jogadores e desafios. Decidi desviar ligeiramente o meu olhar, e perceber o que se estava a passar ao lado dos estádios, fora das televisões: rapazes e raparigas a crescer, a lutar, crianças a parecerem adultos, adultos a comportarem-se como crianças, um país mergulhado na recessão e apatia à espera da vitória da selecção Portuguesa para aconchegar o ego… mas no fim nada mudou e a vida continuou…” Catarina Mourão.