História de um espectáculo pouco famoso


O espectáculo está montado e o deserto cresce com a proletarização do espectador. O evento Famous Bombarda é o evento por excelência. Tudo é consensual e, no palco do “quarteirão das artes”, a arte é imediatamente assimilada, aceita, integrada, consumida.

Orgia do vazio da arte, em que a encenação do lugar-comum da alternativa artística, não passa de um exportável empreendimento de marketing que vende no discurso (e com ele) a luta contra a mercadoria e um ideário de contestação cultural. Nada é contestado. Trata-se de obscurecer, a propósito de arte, aquilo com que opera: a lógica da mercadoria, do mercado e do mercador.

O espantoso não é o evento trazer a si a prática de que nenhum de nós abdica, passiva ou acriticamente, jogar ainda o jogo da mercadoria. Incompreensível é o evento Bombarda, em vez de apelar à abertura à arte e ao debate crítico, estimular a fascinação pelo espectáculo; e, em vez de levar as pessoas à propriedade da arte, conduzi-las à arte da propriedade. Degradado é o discurso que instaura o monopólio da aparência e investe no espaço cénico para obscurecer aquilo que só o voyeur não quer ver.

E o voyeur vem. Vem, e não vê nada além do que quer ver. Vem, e não pode escapar à recuperação do sistema do espectáculo. O seu lugar na história do espectáculo é legitimar e conservar os modos e fundamentos relacionais do Poder, seja ele político ou cultural.


Não somos críticos de arte e nada há a apontar aos galeristas. São os únicos que cumprem com o seu papel e que sabem com o que cumprem.

Perceberam aquilo que o voyeur (espectador ou artista, ou artista-espectador, ou espectador-artista…) não sonha perceber: usar e abusar de uma prática e de uma técnica política que implode a relação com a Arte e com os seus fazedores. Não importa sequer a Arte nem os artistas. O jogo da mercadoria excluiu-os e é independente de quem expõe e das obras expostas. O sucesso (além dos legitimados objectivos comerciais) é retumbante. A Bombarda implode e o espectáculo subverte aquilo que a arte pode significar de irrisão de formas e de criação, a Arte como poder de romper com os campos de controlo e com a possibilidade de pôr em causa os absolutos – o absoluto – e, ao mesmo tempo, carregar consigo a recusa de outro absoluto.


Que pode um artista contra o Famous Grouse? Que pode um artista contra a Cultura e o Lazer? Que pode uma artista a favor do turismo? Que pode um espectador contra o espectáculo?


Arte, como possibilidade de auto-determinação.







Que pode um artista contra o Famous Grouse? E um espectador contra o espectáculo?


Que diferença existe entre o espectador (ou o voyeur) e o crente que nos possa ser útil para dar uma imagem da ganga com que se esgarça o cocktail Bombarda? O religioso acredita na sua fé, e a crença corresponde a uma experiência íntima que o crente não separa da realidade, da sua realidade; o voyeur encena ou adere a uma encenação ritualizada sem a ela se jurar. Nesse sentido, é mais verosímil haver reversibilidade de resposta – de dobra, de qualquer coisa outra – no Salão do Reino de Jeová, ao lado da galeria Fernando Santos, do que no tropel do evento Bombarda. Os primeiros, acreditam em fundamentos e, por mais sectários que sejam, admitem por princípio o jogo da reversibilidade do seu pensamento. Isto é, por mais cristalizada que possa ser, essa ideologia não exclui do seu imaginário o policiamento de outras religiões ou mesmo da não-religião, o horizonte ideológico está sempre aquém de algo outro. Os segundos, o espectador, como não tem crença e encena possuí-la (na arte, no dinheiro, no poder?, trilogia intermutável para o caso…) está para além da possibilidade da troca e não admite a reversibilidade dessa lógica do espectáculo, vai ver as montras e coloca o horizonte do seu imaginário na apoteose que sobeja: estão no deserto do mercado como todos nós, mas têm a displicência de o não distinguir, a graça de dramatizar a sua própria degradação, a petulância de refutar a lógica mercantil participando nela. É uma espécie de folclore desubstancializado; já que o folclore é uma legitimação pela encenação do que se perdeu e, no fundo, onde já nada é jurado senão a própria condição do folclore. Estamos no folclore do vazio, do deserto. O onanismo do impotente.

De um lado, teologia de um Deus; do outro, teologia do dinheiro. No altar do Reino coloca-se a representação divina (suprema ironia, os jeovás são mais iconoclastas do que a arte, pois ultrapassaram o ícone); no outro, prega-se a arte como representação do dinheiro. Silogismo taberneiro – num celebra-se o rito com vinho missal (embora, tanto quanto sabemos, os jeovás não comemoram); no outro, o scotsh comemora a mercadoria.

Onde cresce o monopólio da aparência, expande-se a indiferenciação e o acriticismo; onde o vazio social estiola, instaura-se o controlo do mercado; onde prolifera o deserto de ideias face à política mercantil, não poderá crescer a Arte, mas um produto acabado.


Tudo quer ir para a cama com a Arte: política; crítica; media; alta e baixa cultura; alternativa-burguesa…


Tal como o marketing e a publicidade se apropriaram do surrealismo num par de décadas, o evento Bombarda apropria-se da técnica política do Capitalismo.

Ao quebrar a relação com a Arte – no sentido acima proposto – compreende-se facilmente que venha o Ministro, o presidente de Câmara, os holofotes, aqueles que acreditam nos fundamentos actuais do pior do capitalismo – sempre que ouço falar em cultura puxo da calculadora…. É o beijo sacrificial ao estado das coisas. Paródia da emancipação artística. Ingenuidade ao não reconhecer que a própria política já não existe, que o poder dela retirou-se: o poder está no fluxo do capital e da mercadoria e nas suas estratégias.


Parafraseando um poeta vivo, tudo quer ir para a cama com a arte: política; crítica; media; alta e baixa cultura; alternativa-burguesa, etc…E a tesão? E o desejo? Não desaparecerão irremediavelmente quando a arte já não consegue propor-se ficar de fora da integração voraz da mercadoria? Que Arte subsiste, quando ela é instigada pela mercadoria, pela mercadoria absorvida?


A Arte deixou há muito de pôr em causa a estrutura política e mercantil. Não só se mercantilizou como – pura ironia – tornou-se na vanguarda da criatividade mercantil, já que o mercantilismo usa e abusa da Arte para produzir o seu discurso, a sua comunicação, e a sua legitimação.

A arte é o marketing político e publicitário mais bem sucedido do mundo mercantil. É o futuro da política e da sua regeneração ad nauseum.


A arte promovida pelas galerias (não necessariamente regra do quarteirão da Miguel Bombarda) executa ainda a performance de esconder o acto da transacção, “sonega” as próprias obras, já que é comum as exposições serem efectuadas quando as obras que a compõem já foram previamente vendidas. Ocultação do cadáver esquisito? Ocultismo mercantil? Ou arte privada privatizada?


Fica a nu que a maioria daqueles que vão à Bombarda, não vão lá para adquirir um produto – já que ele não está muito das vezes disponível – nem para ver arte, vão pelo espectáculo de ver. Não consomem arte (só uma elite dentro de uma elite terá acesso a esse consumo), mas consomem espectáculo. E a forma e o conteúdo desse espectáculo “são identicamente a justificação total das condições e das formas do sistema existente” (Debord).

Na melhor hipótese, mimetismo do fundamento em que assenta a sociedade capitalista e a sua economia de produção: tu sabes que este “naco” da civilização não é para todos, mas deverás comportar-te de forma que possas um dia obtê-lo, assim jogarás a tua vida e darás o litro para produzir e contribuir para a imparável produção de nacos da civilização que virtualmente – e aqui subsiste uma crença sem ideal, no deserto e no desespero haverá sempre crença no ilusório – poderão um dia ser teus. Assim, acenamos-te com quadros – e os cavaletes, cabe perguntar, durarão quantos séculos? – para teu deslumbre e nosso sustento.


Estamos no ciclo vicioso. Na Bombarda vê-se (e vende-se) não só o beco sem saída, como também a criatividade com que se sustenta o beco, metáfora do sistema capitalista global que já não faz mais do que gerir a sua própria degradação irreversível.


Arte, metadona da pós-burguesia


Se a religião foi o ópio do povo, a arte é a metadona da pós-burguesia. É pós, porque a burguesia já não existe – “Burgueses somos todos”, dizia e bem o poeta e pintor Cesariny – subsiste a encenação dela na degradação dos conceitos a ela associados. Pós-burguês, porque a burguesia, por mais criticáveis que fossem, construiu um conjunto de valores. Hoje, o pós-burguês tornou-se num ready-made dos tempos actuais.


E nos famosos tempos actuais, as pessoas aderem – as pessoas não participam, aderem, e o que adere é o adereço; conquista da cultura do efémero, do facilitismo e do liberalismo individualista. À sua conta e medida, cada um usa em sistema self-service a dimensão da sua fita-adesiva – nada é público, nada afecta o social e o outro, assim adere-se a tudo o que não exige troca (nem troco…) a tudo o que ao fim ao cabo não põe em causa nem a nossa redundância nem a ordem dominante das coisas. Adere-se sempre que nada se passa. E o espectáculo é o melhor sonho da sociedade moderna bombardeada – de objectos e de informação, de discursos e de “literatura”, de santos ou de hereges, de produtos com ou sem whisky –, sonho “que finalmente não exprime senão o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sono”. (Debord).


A cultura sempre foi a face mais folclórica e simbólica de uma sociedade. Aí se conserva como em vinha-d’alhos. Em Portugal, a chamada cultura popular possuiu sempre a fascinante capacidade para não-evoluir, apetência para uma contínua reiteração dos seus rituais e da autenticidade do seu sentido. Nunca se desfez do seu património, e nunca soube mercantilizá-lo. Ao fim ao cabo, a cultura popular nunca quis ou nunca soube ser folclórica.

A baixa-cultura – seja ela rotulada de grotesca, boçal, piolhosa, bondosa, generosa, acolhedora, genuína, artesanal, arcaica – foi sempre jurada, nela havia crença e, por isso, a decadência estava excluída do seu processo de sobrevivência face à cultura dominante: tecnologicamente agressiva e destrutiva, fundamentada na produção em auto-poiesis, no lucro, na voracidade e na dejecção permanente da mercadoria. Na cultura popular, o ser não desaparece no processo de sobrevivência, ritualiza-se no seu corpo e morre de pé.


Sabemos que a materialização dos desejos e do imaginário da Miguel Bombarda depende cada vez mais da Famous Grouse, da destilação de uma realidade técnica e funcional: do dinheiro e do seu poder simbólico. Estimula-se e exige-se gratuitamente a aparição do espectador da alta-cultura, e o espectador é aquele que cumpre o seu papel não tendo resposta para além da realidade dada e da sua própria qualidade de espectador, é aquele que se condena a sentir-se realizado além da alienação. A falácia não está em fazer parte da encenação – havia aí jogo e estratégia crítica – mas em simplesmente a ela aderir sem nela acreditar. São montras, e montras sem espelho, sem metafísica, sem chocolates…


Nem sequer é preciso pagar para nos sentirmos melhor. É tudo à borla e o próprio whisky é um puro ou gélido acaso da nossa alegria momentânea.

Um pouco ébrios e cambaleantes, talvez seja mais fácil assim para esquecer que fazemos parte da encenação, esquecer que para haver espectáculo é preciso haver espectador, e ao sabor da corrente e com a imaginação já longe, talvez um pouco embotada por mais um pouco de malte, talvez não nos ocorra que se o espectador não compra o seu espectáculo, é porque foi comprado, porque a mercadoria do espectáculo tem essa condição fascinada de duplicar-se no espectador. Depois, rua acima, rua abaixo, reproduzir o discurso do lugar-comum, o discurso de legitimação, se quisermos, o discurso do político: alternativa; cena cultural; novas dinâmicas, novos conceitos; indústrias culturais e criativas; Bombarte; Famous Miguel Bombarda


Não é tanto a posição de acreditar na lógica capitalista à escala tripeira, mas investir numa encenação e num discurso que encobre na essência essa fé em nome da Arte que nos encosta ao estômago.

É juntar no mesmo palco o galerista, o artista, o espectador, o destilador, e todos declararem que estão a lutar contra a mercadoria porque estão todos com a Arte e envolvidos num processo de “criação” artística.


Para que fique claro, os galeristas cumprem o seu papel, exploratório, especulativo, comercial, ou seja, promovem a cultura.

A eles nada há a apontar. Os bastidores do espectáculo pertencem-lhes. A vós, artistas e espectadores, cabe aplaudir.


Os Vadios. 17 de Abril de 2009. Porto.


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