Talvez, por fim, no vidro
daquele café eu pudesse
perceber o que queria ao certo
dizer Kant com aquilo
do “sublime”. Mas não tive tempo.

Manuel de Freitas, in Boa Morte



Informamos que estaremos encerrados no dia 1 (quinta-feira) e 2 (sexta-feira) de Janeiro. Depois, depois nunca se sabe.

Obrigado e bom ano.
Gato Vadio

Alucinações de dois comerciantes

Isto do comércio a retalho nunca se pode ter certezas e o melhor é o caro cliente franzir o sobrolho assim que nos veja atrás do balcão.

Nós que recusamos todas as formas do marketing indirecto, nós que escarnecemos das leis do comércio, que injuriámos o livro de reclamações até ao terceiro tomo, que nos esquivamos aos guichets burocráticos, que não deixamos o freguês sem troco, que atirámos a primeira e a última pedra, nós que estamos aqui para não ter de aturar mais ninguém, o Papa, o presidente do Infesta, o chefe de repartições, o gerente e o padreco, os mass media, o chulo, as valdovinas, íamos agora perder tempo a organizar uma noite de gala, quando a Gala já foi galada pelo Dalí enquanto o diabo esfregava o olho e os bigodes estratosféricos do Salvador, e, caro freguês, salvarmo-nos de quê? Nós que para o ano prometemos erradicar o caruncho das cadeiras, nós que para o ano vamos adquirir – se os critérios de Co-invaginência permitirem e a ministra autorizar – outro aquecedor made in china para aplacar a friagem, nós que ao que tudo indica vamos pôr uns atoalhados novos, quiçá um sistema de wire-less assim que as teias de aranha sejam varridas dos frisos, que perdemos a cabeça e arranjámos um rádio a pilhas, pois o ano passado dando sinais de uma alienação à prova da Situação, esquecemo-nos, melhor, nem sequer nos ocorreu, que deveríamos estar atentos ao final Countdown, mas enquanto não trazemos os Europe – it’s the finest shut down!! – já frisámos os cabelos dos pés, e preparámos um Kit-míssil-calçado cosido à mão ali no vale do Ave, onde se mantêm algumas tradições árabes intactas apesar de não terem em todos os tempos possíveis e imagináveis a tal biblioteca de Bagdade que tinha mais livros na Idade Média que todas as bibliotecas juntas da nossa Europe tão civilizada e cujos altos desígnios mandaram escangalhar, pois dizíamos, a troco de uns tustos oferecemos o tal Kit-míssil-calçado para bombardear com chulé artesanal o ano velho e, vá que não vá, uma tacinha de champagne já que no ano passado sobraram três garrafinhas, e juntos cantaremos louvores ao novo ano pois continuaremos a chafurdar na mesma pocilga, e nós que temos com isso, e vem virá vir-se-à o famous grouse e o capão de Freamunde, venham, venham todos e todas que se nós pudermos ficamos em casa com os pés-de-molho, tanto calo e frieiras de tanto trabalhar um ano inteiro, por que esta vida de feirante e farsante não é para qualquer um, e venha a música da ciganada, a euforia balcânica, e se no ano passado prometemos a depressão e a loucura, vamos então dar lugar aos casamentos e funerais, a bem dizer, os vadios não passam de angelicais meninos de aliança e sinistros cangalheiros. Que o Gato Vadio se aguente com o pernil ao alto antes que a dona Chica lhe arrume o pau…admiram-se?

Passagem de Ano no Gato Vadio

Música cigana e balcânica.

Taxa solidária vadia: 4€ (inclui champagne a rodos…)…

A partir das 21h30

Rua do rosário 281, Porto



Comunicado Gatalício!

(Clicar no cartaz)

No dia 25 de Dezembro estaremos abertos a partir das 21h. Apareçam!

Sessão de Poesia - Domingo, 21 de Dezembro

(Clicar no cartaz)


Nota de Agradecimento: o Gato Vadio agradece a generosidade do Nuno Meireles pelos bons momentos que tem proporcionado aos vadios e vadias!


Sessão de Poesia – Súmula

Nuno Meireles e Júlio Gomes

Domingo, dia 21de Dezembro, 17h30

Gato Vadio, rua do Rosário 281



Apresentação de "Um Asno a Caminho da Terra Santa"


"Um Asno a Caminho da Terra Santa", de Virgílio Liquito, Edições Mortas, 2008.
Apresentação com a presença do autor e da A.Da Silva O.
Sábado, dia 20 de Dezembro, 21h30
Gato Vadio
Rua do Rosário 281 Porto

Djuna Barnes - Sessão de Poesia, domingo, 14 Dez, 18h

O crepúsculo do ilícito

Tu, de tetas escorridas,
Com toda a tua calma,
A tua roupa interior manchada de nódoas, os teus
Braços caídos.
E esses teus dedos saciados pendendo
Da palma das mãos.

Os teus joelhos um para cada lado
São como duas esferas pesadas;
As rodelas sobre os teus olhos parecem
Vagens de lágrimas;
Presas às tuas orelhas,
Duas enormes argolas de ouro, horríveis.

O teu cabelo sem vida, espalmado numa trança
À volta da cabeça.
Os teus lábios, alongados por palavras sábias
Mas nunca ditas.

E na vida que vives, já o esgar
Dos mortos.

Vêem-te sentada ao sol,
Adormecida;
Lembrando a suave graça que costumavas ter
E não conservaste,
Lamentam como em ti estão sepultados
Os altares da luxúria. (…)

Enquanto as outras definham na virtude,
Tu foste vida.

Ver-te-emos a olhar o sol
Por mais alguns anos,
Tendo sobre os olhos rodelas que parecem
Vagens de lágrimas;
E duas enormes argolas de ouro, horríveis,
Presas às orelhas.

Djuna Barnes, in O Livro das Mulheres Repulsivas, ed. &ETC, 2007, (tradução de Fernanda Borges)

Djuna Barnes (1892-1982) nasceu em 1892, em Cornwall-on-Hudson, Nova Iorque. Desde cedo, começou a publicar artigos de imprensa, com um cunho muito pessoal e totalmente alheios à chapa do convencional. Haveria de escrever para a Vanity Fair, a Charm e The New Yorker. Foi, aliás, na qualidade de jornalista, que – depois de ter passado por Nova Iorque – rumou a Paris, mesmo a tempo da tempestade modernista. Regressada à América, levaria uma vida de reclusão voluntária, no seu exíguo apartamento de Greenwich Village. Viria a morrer em 1982. Na sua obra avultam não só a poesia, mas também o teatro e a ficção, na qual merece destaque o romance Nightwood (que Eliot prefaciou), de 1936, publicado em Portugal pela Relógio d’Água com o título “O Bosque da Noite” .


Djuna Barnes

Sessão de poesia. Por Nuno Meireles e Júlio Gomes

Domingo, dia 14 de Dezembro, 18h

Gato Vadio, rua do rosário 281 Porto