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Abafadores

Saimi
little angel, do you hear me?
you know,
life is so absurd. one day you will learn
in a tongue that i do not know
that whole revolt will be useless
to stay in peace.
we can cry all the tears of the world,
break every bone, but nothing will change.
and god, if he exists, is more desperate as we are.
now, i imagine you
tumble out your black hair
dancing against the wind,
like in an ancient poem.
my angel, walk with open eyes,
don't be afraid.
it will make silence. i'm sorry to tell you
but you will be alone.
despite our tears, you will not hear the murmur
of those who love you
the words spell and never spell.
nothing will be enough.
and these words will seem too many.
i'm shore that you hear me calling.
go, go free.
J. do Carmo G., 2 janeiro. 2005.
“O vento gritava na viela. Ouvia-se o seu sopro possante que moía as estruturas podres dos casebres. O velho Kawa sentia o frio imobilizar-se nele – uma dor sem princípio nem fim, como a estagnação de uma lâmina de faca mergulhada na carne viva. O velho Kawa levantou-se, ficou um momento de pé no vão da porta, como se quisesse expulsar este estranho frio do seu corpo. Voltou a acocorar-se e estendeu as mãos para as chamas moribundas do incensador.Albert Cossery, in A Casa da Morte Certa, Antígona, 2001.
“De manhã cedo um homem sai de uma taberna ao pé das docas, com o cheiro do mar no nariz, uma garrafa de uísque no bolso, a deslizar tão levemente na calçada como o navio que abandona a barra.Malcolm Lowry, in Lunar Caustic, Assírio & Alvim, 1985
Casámos porque estávamos famintos. Famintos de amor, se quiser, que o amor é filho da fome. Já para os gregos, Eros era filho de Pénia, da Pobreza.
O amor é fome de outra vida, desejo de transitar. Quando dois amantes se abraçam e beijam, entredevoram-se, morrem um no outro, de algum modo, e transitam para um novo ser. A vida não pode ficar, em nós, a repetir-se, que repetir é estar parado, é ocupar o mesmo lugar.
E dizia-se ainda mais. Dizia-se, por exemplo: O que é que cu tem a ver com as calças? A minha mulher é que sabe tudo mas, para dizer a verdade, não há grande coisa para saber. A primeira vez que vi a Ariane, olhei-a nos olhos, de alto a baixo, ai minha rica bacia, calei-me muito bem caladinho, e disse de mim para mim: É esta!
Um homem, se for homem, aguenta a penada: Tem-te, não caias, Joãozinho!
Não sou homem de muitas falas. Na primeira aberta, só lhe disse o que o professor Salazar terá dito à governanta: “Mariazinha, não estamos aqui para nos divertirmos”.
E podemos saber o que à semelhança de tantos dos nossos compatriotas espalhados pelos quatro cantos do mundo vos leva a emigrar?
Pode. Estamos fartos desta caca.
Mas não têm condições de trabalho no nosso país?
Nem de trabalho, nem de coisíssima nenhuma, embora não me desagrade ver trabalhar.
Mas nunca exerceu nenhuma actividade profissional?
Ponha artista saltimbanco ou não ponha nada. É-me igual, mas quando era miúdo, passou-me pela cabeça ser marinheiro. Queria andar no mar alto, com um papagaio empoleirado no ombro. Ver outras terras, outras gentes.
Não sejas modesto, meu amor. Agora anda com a mania que foi marinheiro de água-doce.
Je te salue, vieil Océan! Il était un petit navire, qui n’avait jamais navigué…
E como pensam sobreviver no Pólo Norte? A comer carne de burro?
JOÃO DE DEUS
A fazer buraquinhos no gelo com a nossa varinha mágica. A minha mulher e eu não gostamos de carne de burro. Temos umas boquinhas muito esquisitas e não somos democratas.
JOÃO DE DEUS
Quem conseguiu sobreviver nesta piolheira, também consegue sobreviver no Pólo Norte. Não se preocupe connosco. Se nos chatearmos, partimos para a lua…
(…)
João de Deus volta costas ao jornalista e acaricia a cabeça do burro.
Anda Luciano, que já enganámos mais um!

NO TÁXI
AOS QUARENTA E CINCO ANOS DE IDADE
5.
O coração não aguentou.
Uma noite
o coração dela parou
dentro dum táxi
é o que vão dizer
Nem todos
há sempre gente que desconfia
das mortes simples como esta
com causas naturais
por hábito por profissão pelo modo de viver que arranjaram
e também de tantas vidas que foram tendo pelos anos fora.
Havia sempre falta de luz em Berlim
e a falta de luz turvava as imagens.
O motorista disse
Chegámos, são tantos pesos.
Não quer sair?
Pesavam-lhe as pernas de pedra à entrada da galeria de tótens
e havia um ídolo que não chegaria a ser fotografado
não entraria portanto na imensa reportagem que fizemos
pai, filho e amante do pai
ao fundo das terras e dos tempos
durante meses
de camioneta em camioneta, de pensão em pensão
sem horário.
uma máquina de escrever.
Escorre-lhe como um filme a vida
naquele segundo exacto em que a imobilidade se instala.
Cabe-lhe num segundo a vida inteira
nomes
tantos nomes
terras, amigos, navios, estações, companheiros, lugares, máquinas, comboios,
camaradas
cronologia sem falhas, geografia precisa
Sempre ouviu dizer que assim seria
da boca dos que tinham acabado por escapar.
Talvez eu escape também.
Morreu ontem à noite num táxi a ex-fotógrafa italiana Tina Modotti.
Taquicardia ou pistola?
Um enjoo, uma agonia.
Veneno? Enfarte?
(...)
“A satisfação das necessidades elementares continua a ser a melhor salvaguarda da alienação, o que melhor a dissimula justificando-a com base numa exigência inatacável. A alienação cria inúmeras necessidades porque não satisfaz nenhuma; a insatisfação mede-se hoje pela quantidade de carros, frigoríficos ou televisores: objectos alienantes que na sua pobreza concreta perderam a astúcia e o mistério de uma transcendência, limitando-se a existir. O rico actual é quem possui o maior número de objectos pobres.
Raoul Vaneigem, in Banalidades de Base, Frenesi, 1998.