Lançamento do #4 da Revista Big Ode - Sábado, dia 29 de Março

Lançamento da Revista 4# Big Ode. (clicar na imagem)

Vídeo. Poesia. Música.

Sábado, dia 29 de Março, às 22h30 no Gato Vadio
entrada livre

Poema

Abafadores

Ao fim da tarde, no pátio da escola,
abrem-se os primeiros buracos
para jogar ao berlinde. Milimetricamente
procuram-se os locais do ano
passado. Dos mais velhos
é o primeiro testemunho na arte de invadir
o mundo. Afoitos, explicam também
como os botões sobram na roupa
dos mortos. Durante o velório
esperam o momento certo e zás,
sem contemplações, arrancam-nos dos punhos.

Roubados os botões, fica o relógio
valioso para enumerar os percalços
do mundo.

Artur Aleixo, in If My heart Could Only Walk, 2007

Leitura de Poemas do livro If My heart Could Only Walk, de Artur Aleixo
Sábado, 29 de Março - 22h30 Gato Vadio

"1958 - ?" Pauliño, mostra de desenhos

Pauliño
Mostra de Desenhos

28 de Março a 13 de Abril de 2008

Gato Vadio

(abertura ao público: sexta-feira, 28 de Março, às 16h).

patrocínio: The Famous Tremoço


vozes, gritos, palavra.

"(…)o preocupa acima de tudo a visão daqueles que não vivem para depois, mas apenas e sempre para agora. A visão dos que andam despreocupadamente pela vida, dos que vão, dos que vêm, sempre sem pensar no pai, sempre despreocupadamente. Desde o início que o filho-de-deus inculca nos seus dependentes a necessidade de preocupar-se com a aparência e com os modos (a fim de que não se diga que morreram por incúria, mas que souberam preparar a morte), de preocupar-se com o traje e com a higiene (a fim que se não diga...uma injúria); embora o crer do filho nada seja comparado com o querer do pai, ele inculca nos seus dependentes a necessidade de preocupar-se com o que fazem e com o que dizem, com a casa onde habitam e com os lugares aonde vão, com o que ganham e com o que gastam e gostam, com o que pensam e como pensam e quem dá a bênção, e com o que a cada momento e em cada circunstância devem apoiar e devem rejeitar, a fim de conseguirem o seu lugar de filhos-de-deus, e a fim de o não perderem depois, de o não perderem nunca, e ainda a fim de conservarem a validez do crédito, e o direito à credencial de invalidez, ou à pensão de velhice, isto é, à morte bem temperada.”

Alberto Pimenta, in Discurso sobre o Filho-de-Deus, Edições Mortas, 1995.

Curtas de Animação e Documentário, 20 de Março, quinta-feira, no Gato Vadio


Para dar as boas vindas à “Primavera de destroços”, será projectada a obra de dois jovens realizadores portugueses que trabalham nas áreas de cinema de animação e do documentário. A projecção será no jardim da livraria (se a Primavera não nos destroçar os planos…) e contará com a presença dos realizadores. A entrada é livre. (clicar na imagem).

poema
















To Ruby and Mika

Saimi

little angel, do you hear me?
you know,
life is so absurd. one day you will learn
in a tongue that i do not know
that whole revolt will be useless
to stay in peace.
we can cry all the tears of the world,
break every bone, but nothing will change.

and god, if he exists, is more desperate as we are.

now, i imagine you

tumble out your black hair

dancing against the wind,

like in an ancient poem.

my angel, walk with open eyes,

don't be afraid.

it will make silence. i'm sorry to tell you

but you will be alone.

despite our tears, you will not hear the murmur

of those who love you

the words spell and never spell.

nothing will be enough.

and these words will seem too many.

i'm shore that you hear me calling.

go, go free.

J. do Carmo G., 2 janeiro. 2005.


vozes, gritos, palavra.

“O vento gritava na viela. Ouvia-se o seu sopro possante que moía as estruturas podres dos casebres. O velho Kawa sentia o frio imobilizar-se nele – uma dor sem princípio nem fim, como a estagnação de uma lâmina de faca mergulhada na carne viva. O velho Kawa levantou-se, ficou um momento de pé no vão da porta, como se quisesse expulsar este estranho frio do seu corpo. Voltou a acocorar-se e estendeu as mãos para as chamas moribundas do incensador.
Pouco depois, pareceu-lhe que alguém se mexia no pátio. Voltou-se para o canto esquerdo e distinguiu a silhueta delicada, insignificante de Chéhata, o marceneiro. O homem parecia absorvido numa tarefa que exigia uma eternidade. Os seus olhos ternos não se mexiam nas órbitas; mantinha-os continuamente cravados no trabalho. Ibrahim Chéhata, o marceneiro, um ser taciturno e insondável, ocupava, na companhia da sua mulher e dos seus quatro filhos, um infame reduto nas profundezas da casa. Esta família famélica arrastava uma miséria verdadeiramente medieval. Todos morriam de fraqueza. (...)
Demasiado pobre para arrendar uma loja, o marceneiro instalara-se num canto do pátio. Viam-no sempre a entregar-se a um trabalho minucioso e quase clandestino. Mas este incessante labor escondia uma miséria perseverante e trágica, pois, na realidade, o trabalho que o marceneiro apresentava não respondia a nenhuma encomenda de clientes. Representava, pare ele, uma espécie de narcótico. Com o espírito monopolizado pelo trabalho ingrato, tentava esquecer a sua extrema indigência e, sobretudo, a fome insaciável que o devorava."


Albert Cossery, in A Casa da Morte Certa, Antígona, 2001.


vozes, gritos, palavra.

“De manhã cedo um homem sai de uma taberna ao pé das docas, com o cheiro do mar no nariz, uma garrafa de uísque no bolso, a deslizar tão levemente na calçada como o navio que abandona a barra.Não tarda, porém, que vá meter-se em pleno vendaval; açoitado por todos os lados, vê-se coagido a voltar para trás. Que jeito lhe daria um porto de abrigo qualquer.Refugia-se noutro botequim.
Ainda consegue escapar desta, e expeditamente refeito; o pior são as dificuldades que mais adiante o espreitam. E agora muito a sério: por u triz não fica debaixo do autocarro, dá com a cabeça numa parede e até cai para cima do caixote do lixo onde há pouco deitara uma garrafa. Quem passa olha-o com ar de reprovação ou troça; e alguns chegam a mostrar uma estranha cupidez.(...)
Mete-se noutra taberna, mas dá-lhe para falar de pessoas que não conhece e sítios que nunca viu. Pela porta aberta a dominar o rio, o hospital obceca-o. Com arrogantes, farpados destroços de navio mesmo ao lado, a venerá-lo acima daquele escarrador e parece que assustados com os homens que tem dentro. Do fundo da taberna chega-lhe como que um gemido e um tiquetaque de relógio.
Outra vez na rua, a peregrinação prossegue; lá vai de taberna em taberna, como que á procura de uma coisa, mas o hospital é que não lhe sai da ideia, todos aqueles bares não passam de pontos de referência no seu círculo. Pára junto de um sino que toca numa rua ao longo do cais; uma mulher horrível, de rosto devastado meio oculto atrás de um véu negro, tenta enfiar no marco do correio uma carta, tenta-o várias vezes sem resultado e por fim consegue-o, mas tanto treme que as mãos nem mãos parecem. Assalta-o, então, uma ideia estranha: que é para ele a carta.”


Malcolm Lowry, in Lunar Caustic, Assírio & Alvim, 1985


vozes, gritos, palavra.

ARIANE

Casámos porque estávamos famintos. Famintos de amor, se quiser, que o amor é filho da fome. Já para os gregos, Eros era filho de Pénia, da Pobreza.
O amor é fome de outra vida, desejo de transitar. Quando dois amantes se abraçam e beijam, entredevoram-se, morrem um no outro, de algum modo, e transitam para um novo ser. A vida não pode ficar, em nós, a repetir-se, que repetir é estar parado, é ocupar o mesmo lugar. O amor compensa a morte, dá o que ela tira. O homem perpetua-se, amando e alimentando-se: Comei! Este é o meu corpo! O corpo é fruto assimilado; e o fruto é húmus, água e sol. E o fruto assimilado se transformará em espírito, alcançando assim a Divindade.

JOÃO DE DEUS, off

E dizia-se ainda mais. Dizia-se, por exemplo: O que é que cu tem a ver com as calças? A minha mulher é que sabe tudo mas, para dizer a verdade, não há grande coisa para saber. A primeira vez que vi a Ariane, olhei-a nos olhos, de alto a baixo, ai minha rica bacia, calei-me muito bem caladinho, e disse de mim para mim: É esta!
Um homem, se for homem, aguenta a penada: Tem-te, não caias, Joãozinho!
Não sou homem de muitas falas. Na primeira aberta, só lhe disse o que o professor Salazar terá dito à governanta: “Mariazinha, não estamos aqui para nos divertirmos”.

JORNALISTA

E podemos saber o que à semelhança de tantos dos nossos compatriotas espalhados pelos quatro cantos do mundo vos leva a emigrar?

JOÃO DE DEUS

Pode. Estamos fartos desta caca.

JORNALISTA

Mas não têm condições de trabalho no nosso país?

JOÃO DE DEUS

Nem de trabalho, nem de coisíssima nenhuma, embora não me desagrade ver trabalhar.

JORNALISTA

Mas nunca exerceu nenhuma actividade profissional?

JOÃO DE DEUS

Ponha artista saltimbanco ou não ponha nada. É-me igual, mas quando era miúdo, passou-me pela cabeça ser marinheiro. Queria andar no mar alto, com um papagaio empoleirado no ombro. Ver outras terras, outras gentes.

ARIANE

Não sejas modesto, meu amor. Agora anda com a mania que foi marinheiro de água-doce.

JOÃO DE DEUS

Je te salue, vieil Océan! Il était un petit navire, qui n’avait jamais navigué…

JORNALISTA

E como pensam sobreviver no Pólo Norte? A comer carne de burro?

JOÃO DE DEUS

A fazer buraquinhos no gelo com a nossa varinha mágica. A minha mulher e eu não gostamos de carne de burro. Temos umas boquinhas muito esquisitas e não somos democratas.

JORNALISTA

E como pensam resistir à inclemência das neves eternas?
(…)

JOÃO DE DEUS

Quem conseguiu sobreviver nesta piolheira, também consegue sobreviver no Pólo Norte. Não se preocupe connosco. Se nos chatearmos, partimos para a lua…
(…)

João de Deus volta costas ao jornalista e acaricia a cabeça do burro.

JOÃO DE DEUS

Anda Luciano, que já enganámos mais um!

João de Deus ajuda Ariane a montar o burro. O jornalista estende, em vão, a mão a João de Deus, tira o gorro, limpa o suor da testa e sai de campo. João de Deus, descalço, conduz o burro pela arreata. Estuga o passo, vai veloz, mas não segura: Ariane estatela-se. Pequeno bate-cu sem consequências de maior. Desistirão os destemidos emigrantes, tão polares e merdiáticos?

João César Monteiro, in Les Bassin de John Wayne seguido de As Bodas De Deus, & etc, 1997

Com uma Faca nos Dentes (2)

De que cor é o Correio da Manhã?


A história do Correio da Manhã é negra ou branca?


Quando o Correio da Manhã na sinopse introdutória à Colecção "Os anos de Salazar" refere que a "informação rigorosa" perante a história "não é negra nem é branca", e "não conhece cores políticas", admite a hipótese que a ideologia da isenção, do rigor e da imparcialidade (a ideologia da não-ideologia ou a comunicação social tornada kitsh por essência ) está para além da premissa geral que assume que, em todos os tempos históricos, quem manda prender, torturar e assassinar é fascista. Por outras palavras, o fascismo – seja ele de que cor pop se revestir – pode ser denunciado por um fundamento baseado em ideologias e cores políticas, mas pode passar em branco e incólume ao olhar não-ideológico da Informação defendida pelo Correio da Manhã. Isentos e imberbes como o rosto de um ditador!

Independentemente dos textos que acompanham esta iniciativa do Correio da Manhã (e se retirarmos o til?), só podem existir duas razões para que a campanha de promoção publicitária tenha o rosto de Salazar em versão Pop-arte – estetizar o rosto do fascismo lusitano só seria interessante se não fosse uma ideia estafada, e inteligente se imbuída de ironia, o que não acontece e consequentemente este acto publicitário quer dizer que tudo pode valer porque nada vale – em vez do rosto de um homem ou de uma mulher torturados em nome do regime de Salazar:

1. Por razões comerciais, ou seja, fazer guito com o facho de Santa Comba Dão (motivo óbvio);
2. Pelo culto muito em voga da lixívia histórica aplicada por quem não tem pensamento próprio ou prefere comodamente não-pensar.

Há uma terceira razão possível, mais abastardada ainda, que seria a união das duas razões assinaladas.

Neste país, se um jornal ou alguém – quem quer que seja que prefira não mentir – quiser ser imparcial sobre a história do regime de Salazar não é sério se organiza uma campanha publicitária (denunciamos o "rosto" desta campanha publicitária e não os textos que desconhecemos) com o rosto cheio de peelings e facelifts do homem por quem se perseguiu, prendeu, torturou, matou, "não contando e ocultando" o rosto de quem sentiu na pele e pela cabeça abaixo as pauladas do dito cujo.

Por que quando se lidera um Estado que durante 40 anos assassina, a história não é negra nem branca: é vermelha.

Os Vadios

A propósito da campanha publicitária do Correio da Manhã, "Colecção Os Anos de Salazar"(Clique na imagem e saiba como ganhar uma viagem ao Tarrafal!).


poema

NO TÁXI EM QUE MORREU NA CIDADE DO MÉXICO
AOS QUARENTA E CINCO ANOS DE IDADE

1.
É mais noite que ela vê do que outra coisa
do lado de lá do vidro turvo do táxi
Prédios ou barcos?
Comboios
estações vazias onde ninguém pára
Do outro lado do vidro turvo do táxi
corre um cais
Corre enquanto dorme
o cais
Foi ali o grito
naquela esquina
Ou é um mastro?
Ele caiu com mais peso do que tinha.
Terei bebido demais?

Tequilha.

(...)
5.
O coração não aguentou.
Uma noite
o coração dela parou
dentro dum táxi
é o que vão dizer
Nem todos
há sempre gente que desconfia
das mortes simples como esta
com causas naturais
por hábito por profissão pelo modo de viver que arranjaram
e também de tantas vidas que foram tendo pelos anos fora.
Havia sempre falta de luz em Berlim
e a falta de luz turvava as imagens.
O motorista disse
Chegámos, são tantos pesos.
Não quer sair?
Pesavam-lhe as pernas de pedra à entrada da galeria de tótens
e havia um ídolo que não chegaria a ser fotografado
não entraria portanto na imensa reportagem que fizemos
pai, filho e amante do pai
ao fundo das terras e dos tempos
durante meses
de camioneta em camioneta, de pensão em pensão
sem horário.

Cai-lhe da mão a fotografia que se chamou
La Tecnica
uma máquina de escrever.
Escorre-lhe como um filme a vida
naquele segundo exacto em que a imobilidade se instala.
Cabe-lhe num segundo a vida inteira
nomes
tantos nomes
terras, amigos, navios, estações, companheiros, lugares, máquinas, comboios,
camaradas
cronologia sem falhas, geografia precisa
Sempre ouviu dizer que assim seria
da boca dos que tinham acabado por escapar.
Talvez eu escape também.
Morreu ontem à noite num táxi a ex-fotógrafa italiana Tina Modotti.
Taquicardia ou pistola?
Um enjoo, uma agonia.
Veneno? Enfarte?
(...)

Eduarda Dionísio, in Tina M. Provas de Contacto, & etc, 2001

vozes, gritos, palavra.

“A satisfação das necessidades elementares continua a ser a melhor salvaguarda da alienação, o que melhor a dissimula justificando-a com base numa exigência inatacável. A alienação cria inúmeras necessidades porque não satisfaz nenhuma; a insatisfação mede-se hoje pela quantidade de carros, frigoríficos ou televisores: objectos alienantes que na sua pobreza concreta perderam a astúcia e o mistério de uma transcendência, limitando-se a existir. O rico actual é quem possui o maior número de objectos pobres. Até agora, sobreviver impediu-nos de viver. Por isso, temos muito a esperar da impossibilidade de sobreviver que já se anuncia, com uma evidência tanto menos rejeitável quanto o conforto e a superabundância de elementos da sobrevivência nos instigam ao suicídio ou à revolução.”

Raoul Vaneigem, in Banalidades de Base, Frenesi, 1998.