vozes, gritos, palavra.

"Apetece-me chorar, mas Deus manda-me escrever. Não quer que eu fique sem fazer nada. A minha mulher continua a chorar. Eu também choro. Tenho medo de que o doutor Fränkel venha dizer-me que a minha mulher está a chorar, enquanto eu escrevo. Não irei ter com ela, porque a culpa não é minha. Irei comer sozinho, se deus me manda ir. A minha filha vê e ouve tudo, e espero que me compreenda. Amo a Kyra, mas ela não me sente, porque tem uma bêbada com ela. Vi os frascos de álcool. Um frasco de álcool a noventa graus e outro diluído em água. A minha mulher não vê, mas espero que a mãe dela veja e se desfaça da mulher e do frasco. A minha Kyra sente que a amo, mas pensa que estou doente, porque lhe andaram a contar histórias. Eles perguntam-me se durmo bem, e eu digo-lhes que durmo sempre bem. Não sei o que hei-de escrever, mas Deus quer que eu escreva, porque sabe o que isso significa. Em breve, irei a Paris e farei tal impressão que o mundo inteiro vai falar de mim. Não quero que se pense que sou um grande escritor. Não quero que se pense que sou um grande artista. Não quero que se diga que sou um grande homem. Sou um homem simples que sofreu muito. Não acredito que Cristo tenha sofrido tanto como eu tive de sofrer durante toda a minha vida. Amo a vida e quero viver."

Nijinski, in Cadernos, Assírio & Alvim, 2004.

poema


18
Suponho que me encontrasses numa inexplicável atmosfera
de frio. Terias sete mil cabelos a guardar-te a beleza, e um
cavalo sempre pronto.

Então, agarrados à crina do desejo, percorreríamos toda a
terra guiados apenas pelo movimento, o livro, a fome.

Ah agora que te cortaste, não estanques a ferida. Deita-te, não
penses no que te vai acontecer.

Vasco Gato, in A Prisão e Paixão de Egon Schiele, & ETC, 2005

vozes, gritos, palavra.

“O verdadeiro problema revolucionário é o dos tempos livres. Os interditos económicos e os seus corolários morais serão de qualquer maneira destruídos e superados em breve. A organização dos tempos livres, a organização da liberdade de uma multidão, um pouco menos vinculada ao trabalho contínuo, é já uma necessidade para o Estado capitalista como para os seus sucessores marxistas. Por toda a parte, essa necessidade tem-se limitado ao embrutecimento obrigatório dos estádios ou dos programas televisivos.
É sobretudo a este propósito que devemos denunciar a condição imoral que nos impõem, o estado de miséria.
Depois de passados alguns anos a não fazer nada no sentido comum do termo, podemos falar da nossa atitude de vanguarda social, uma vez que numa sociedade ainda provisoriamente baseada na produção não nos quisemos preocupar seriamente com nada a não ser com os tempos livres.”

Excerto de um comunicado do Boletim de Informação da Internacional Letrista, de 3 de Agosto de 1954, in Potlatch, Fenda, 2006

poema

catch 69

passam as mãos em torno das coxas
repuxam-nas puxam-nas contra o peito
encostam-nas aos ombros e à cabeça
por onde as roçam encolhendo e ab
rindo os braços com as mãos espal
madas debruçam-se agarram as nádegas
com as duas mãos deixam cair as
cabeças ficam contemplando as pernas
virando-as de todos os lados cruzan
do-as entre o que tinham na mão
pegam mais acima balançam acabam po
r encontrar as coxas coladas à ca
beça cheiram o cu tocam o umbigo pas
sam o braço direito pela nádega e
squerda metem um dedo na boca batem
no chão com a mão esquerda encost
am a cabeça à barriga abrem a b
oca servem no sovaco caem no chão
com as aberturas todas abertas mija
ndo quebrando abrindo estragando irre
mediavelmente as bonecas as bonecas


Alberto Pimenta, in Obra Quase Incompleta, Fenda, 1990

vozes, gritos, palavra.

“Que tratado houve que os homens brancos tenham respeitado e o homem vermelho rompido? Nenhum. Que tratado houve que o homem branco alguma vez haja feito connosco e ele tenha respeitado? Nenhum. Quando eu era criança, os Sioux eram senhores do mundo; o sol nascia e punha-se dentro das suas terras e podiam enviar dez mil homens ao combate. Onde estão hoje esses guerreiros? Quem os terá chacinado? E as nossas terras, onde estão? Quem será que as possui? Que homem branco poderá sustentar que eu alguma vez lhe tenha roubado a terra ou um só centavo do seu dinheiro? E apesar disso chamam-me ladrão. Que homem branco, mesmo sozinho, foi alguma vez feito cativo ou insultado por mim? E apesar disso clamam que eu sou um índio ruim. Que homem branco me terá alguma vez visto bêbado? Quem terá alguma vez chegado ao pé de mim com fome e se foi embora sem comer? E alguém me terá visto alguma vez bater nas minhas mulheres ou maltratar os meus filhos? Que lei terei eu quebrado?(...) Acaso será um mal que tenha a pele vermelha? Que seja um sioux? Que tenha nascido onde meu pai viveu? Que morra pelo meu povo e pela minha terra?”

Trecho de Tatanka Iotanka, (ou Touro Sentado), guerreiro sioux, in A Fala do Índio, Fenda, 2000

vozes, gritos, palavra.

"Será que o capital e o trabalho não têm o mesmo destino? Será que ainda hoje podemos qualificar o trabalho como força produtiva e fundamento da riqueza? Enquanto o trabalho foi vivido como uma alienação pela maioria dos homens, era possível atribuir-lhe um papel subversivo. O homem fazia face às máquinas na medida das suas possibilidades. Diziam-se que eram alienantes e tentava libertar-se delas. Mas na nossa nova logística de interacção homem-máquina, já não se trata de trabalho. O homem e a máquina interagem. Já não existe o agente trabalho. Existe apenas uma operação. Já não nos encontramos numa situação de confronto transcendente e vertical: estamos antes numa situação horizontal de funcionamento em rede. Hoje em dia, quem trabalha é como se fosse um cadáver de que nunca mais conseguimos desembaraçar-nos. O sistema bem o desejaria mas não consegue, e os trabalhadores, que são afectados por isso, também não querem abandonar a sua razão de existir. Isto é paradoxal. De um modo geral, o trabalho deixou de figurar como uma energia de ruptura(...)"

Jean Baudrillard, in O Paroxista Indiferente, Edições 70, 1998.

Workshop de Pintura - Março


O Workshop de Pintura com Nicola Raspopovic vai começar este sábado, dia 1 de Março. A 4.ª e última sessão do Workshop será no dia 29 de Março. ("Clicar" na newsletter para mais informações. Nota: a data de 23/24 de Fevereiro foi alterada para o fim-de-semana 29/30 de Março). Existem 2 vagas abertas para o grupo de sábado. As inscrições devem ser efectuadas na livraria do Gato Vadio ou através do tel.220131894 ou para o email: gatovadio.livraria@gmail.com.

poema

QUERIDA SOPHIA,

Afinal as mónicas continuam
são as de sempre.
Fazem psicanálise e ioga,
cabeleireiro aos sábados e depilação 2 vezes por mês.
Não têm filhos mas adoptam-nos
como dão guarida aos cães.
Têm-nos de toda a qualidade
e para qualquer situação:
de cego para quando acordam cedo
e o excesso de luz as perturba;
da pradaria se pretendem preciosidades
raridades escondidas;
de água quando temerariamente mergulham
quelques centimètres plus fond;
Briard quando precisam de inteligentes
e corajosos ou de pelagem abundante e
algo ondulada como os define
o dicionário Houaiss;
e finalmente de guarda ou de
fila não venha a coisa a tornar-se pior.
Por vezes, estes últimos, podem tornar-se pegajosos,
inoportunos, indesejáveis
pelo que recebem o nome de miúdo ou
tinhoso, como o do rabo comprido, o
que também as enfeitiça
por fugir à norma, ao vulgo, ao
tremoço.
São de sempre as mónicas
e quando falam ao telemóvel
usam uma voz recortada
como as mitenes da avó
e nunca amanham peixe
ou se amanham é para utilizar
as escamas em quadros florais
dispostos corredor acima.
Ao peixe comem-no cru
para experimentar outras culturas.

Ana Paula Inácio, in Telhados de Vidro n.º 9, Averno, 2008

vozes, gritos, palavra.

«Um dos mitos actuais sugere que a riqueza provém dos banqueiros e dos capitalistas individuais. Este conceito manifesta-se nas inúmeras instituições de caridade, que devem pedir esmolas para os pobres, incapacitados, desprotegidos, e jovens e velhos em geral. Estas instituições de caridade constituem uma reminiscência dos velhos tempos dos piratas, quando se acreditava que nunca haveria que chegasse para todos. Aconselhados pelos banqueiros, os nossos políticos dizem-nos que não nos podemos permitir simultaneamente a guerra e o estado social. Devido ao mítico conceito segundo qual a riqueza desembolsada provém de fontes privadas, magicamente secretas, nenhum indivíduo livre e saudável deseja aceitar "essa esmola" de outro homem, seja ele quem for, assim como nenhum indivíduo deseja encontrar-se no publicamente degradante "desemprego".»

Buckminster Fuller, in Manual de Instruções para a Nave Espacial Terra, Via Óptima, 1998

vozes, gritos, palavra.


(...)"Haverá remédio para isto? Que pode fazer o desesperado consciente da sua própria impotência no
dia em que se sente alegre e ligeiramente ébrio e dispõe de mais dinheiro do que é costume?
Leva a mulher a um restaurante para gente elegante, longe da desolação do seu bairro cinzento.
Agora vai divertir-se e mandar para o diabo a draga e o cheiro a lodo e peixe podre que nunca o larga
e empesta o triste apartamento onde vive. Agora vai esquecer tudo, o vinho borbulhará como nos cartazes, jorrarão risos (...)
mas por que é que os olhos se viram para ele quando ele entra na sala? Os olhares dos outros
trespassam-no, esquadrinham profundamente a leve embriaguez que já o habita(...)Cheirará ainda a lodo,
apesar de ter vestido roupa lavada e de ter tomado vários banhos durente a tarde? Sim, é isso mesmo, continua a cheirar a lodo,
está envolvido num cheiro invisível, prisioneiro de um cheiro que lhe proíbe definitivamente arvorar esse ar
soberano que os outros têm, de se deslocar com o perfeito à-vontade deles, e terá sempre de perguntar a si próprio: terei
o direito? quem é o dono? quanto custa? parte-se se eu lhe mexer? Como escapar a tudo isto? E está condenado a
permanecer prisioneiro, prisioneiro da sujidade, da pobreza, da impotência."

Stig Dagerman, in A Ilha dos Condenados, Antígona, 1990

poema


O crepúsculo do ilícito

Tu, de tetas escorridas,
Com toda a tua calma,
A tua roupa interior manchada de nódoas, os teus
Braços caídos.
E esses teus dedos saciados pendendo
Da palma das mãos.

Os teus joelhos um para cada lado
São como duas esferas pesadas;
As rodelas sobre os teus olhos parecem
Vagens de lágrimas;
Presas às tuas orelhas,
Duas enormes argolas de ouro, horríveis.

O teu cabelo sem vida, espalmado numa trança
À volta da cabeça.
Os teus lábios, alongados por palavras sábias
Mas nunca ditas.

E na vida que vives, já o esgar
Dos mortos.

Vêem-te sentada ao sol,
Adormecida;
Lembrando a suave graça que costumavas ter
E não conservaste,
Lamentam como em ti estão sepultados
Os altares da luxúria. (…)

Enquanto as outras definham na virtude,
Tu foste vida.

Ver-te-emos a olhar o sol
Por mais alguns anos,
Tendo sobre os olhos rodelas que parecem
Vagens de lágrimas;
E duas enormes argolas de ouro, horríveis,
Presas às orelhas.

Djuna Barnes, in O Livro das Mulheres Repulsivas, ed. &ETC, 2007

Esta livraria não vale a fibra-óptica com que se vai enforcar!



Passaram dez meses desde o fatal dia em que o Gato Vadio abriu portas. Aos poucos fomos acolhendo os lobos, as lobas e os lobachos da cidade. Desde o primeiro instante também espaventámos muita gente. A alcateia laborava um covil radioso. Estávamos na era do retrato do vadio enquanto gato real.
Mas a mitificação do mundo não podia ficar por aqui. Pop-ins e popups exigiam de nós o direito a existir na blogosfera. Queriam acertar-nos o passo com a História, com a feira de virtualidades. Tecia-se a trama(ção).Por várias vezes estivemos para ser linkhados em praça pública. Vivíamos a angústia da livraria antes do penalty da fibra-óptica. Pensámos: para que lado nos atiramos? Concluímos: se há um sentido do real deve haver um sentido do virtual. Caímos na rede. Era preciso que o vadio ganhasse a dimensão total da bytegamia. Emaranhado neste apocalipse de fenómenos, imagens e símbolos, engalfinhado nesta cosmoagonia self-service, gato esquentado, onde quase todos vão a todas, desconfia. É que “se a realidade é uma sombra da palavra” (Bruno Schulz), o perigo da virtualidade está no contínuo apagamento de sombras. Sem espinhas, prometemos lentidão, preguiça, ócio. Envidaremos esforços para ficarmos senão escondidos pelo menos com o rabo de fora da actualite.
Agora que somos um espectro vivemos a felicidade digital das grandes visões.

Os Vadios

vídeo experimental - sábado, 9 Fevereiro


O Gato Vadio e o projecto Vídeolab
apresentam uma sessão de vídeo
experimental e vídeo arte. 17 vídeos
vindos de diferentes países que
interrogam o lugar do vídeo na arte
e o lugar do espectador/sujeito no mundo.
(ver newsletter ao lado).