poema

NO TÁXI EM QUE MORREU NA CIDADE DO MÉXICO
AOS QUARENTA E CINCO ANOS DE IDADE

1.
É mais noite que ela vê do que outra coisa
do lado de lá do vidro turvo do táxi
Prédios ou barcos?
Comboios
estações vazias onde ninguém pára
Do outro lado do vidro turvo do táxi
corre um cais
Corre enquanto dorme
o cais
Foi ali o grito
naquela esquina
Ou é um mastro?
Ele caiu com mais peso do que tinha.
Terei bebido demais?

Tequilha.

(...)
5.
O coração não aguentou.
Uma noite
o coração dela parou
dentro dum táxi
é o que vão dizer
Nem todos
há sempre gente que desconfia
das mortes simples como esta
com causas naturais
por hábito por profissão pelo modo de viver que arranjaram
e também de tantas vidas que foram tendo pelos anos fora.
Havia sempre falta de luz em Berlim
e a falta de luz turvava as imagens.
O motorista disse
Chegámos, são tantos pesos.
Não quer sair?
Pesavam-lhe as pernas de pedra à entrada da galeria de tótens
e havia um ídolo que não chegaria a ser fotografado
não entraria portanto na imensa reportagem que fizemos
pai, filho e amante do pai
ao fundo das terras e dos tempos
durante meses
de camioneta em camioneta, de pensão em pensão
sem horário.

Cai-lhe da mão a fotografia que se chamou
La Tecnica
uma máquina de escrever.
Escorre-lhe como um filme a vida
naquele segundo exacto em que a imobilidade se instala.
Cabe-lhe num segundo a vida inteira
nomes
tantos nomes
terras, amigos, navios, estações, companheiros, lugares, máquinas, comboios,
camaradas
cronologia sem falhas, geografia precisa
Sempre ouviu dizer que assim seria
da boca dos que tinham acabado por escapar.
Talvez eu escape também.
Morreu ontem à noite num táxi a ex-fotógrafa italiana Tina Modotti.
Taquicardia ou pistola?
Um enjoo, uma agonia.
Veneno? Enfarte?
(...)

Eduarda Dionísio, in Tina M. Provas de Contacto, & etc, 2001

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