vozes, gritos, palavra.


(...)"Haverá remédio para isto? Que pode fazer o desesperado consciente da sua própria impotência no
dia em que se sente alegre e ligeiramente ébrio e dispõe de mais dinheiro do que é costume?
Leva a mulher a um restaurante para gente elegante, longe da desolação do seu bairro cinzento.
Agora vai divertir-se e mandar para o diabo a draga e o cheiro a lodo e peixe podre que nunca o larga
e empesta o triste apartamento onde vive. Agora vai esquecer tudo, o vinho borbulhará como nos cartazes, jorrarão risos (...)
mas por que é que os olhos se viram para ele quando ele entra na sala? Os olhares dos outros
trespassam-no, esquadrinham profundamente a leve embriaguez que já o habita(...)Cheirará ainda a lodo,
apesar de ter vestido roupa lavada e de ter tomado vários banhos durente a tarde? Sim, é isso mesmo, continua a cheirar a lodo,
está envolvido num cheiro invisível, prisioneiro de um cheiro que lhe proíbe definitivamente arvorar esse ar
soberano que os outros têm, de se deslocar com o perfeito à-vontade deles, e terá sempre de perguntar a si próprio: terei
o direito? quem é o dono? quanto custa? parte-se se eu lhe mexer? Como escapar a tudo isto? E está condenado a
permanecer prisioneiro, prisioneiro da sujidade, da pobreza, da impotência."

Stig Dagerman, in A Ilha dos Condenados, Antígona, 1990

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